{"id":98333,"date":"2016-04-18T11:30:45","date_gmt":"2016-04-18T14:30:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=98333"},"modified":"2016-04-19T15:10:54","modified_gmt":"2016-04-19T18:10:54","slug":"gloria-pires-alimenta-a-polemica-como-nise-a-da-silveira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/gloria-pires-alimenta-a-polemica-como-nise-a-da-silveira\/","title":{"rendered":"Gl\u00f3ria Pires alimenta a pol\u00eamica como Nise (a da Silveira&#8230;)"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Luiz Carlos Merten<\/strong><\/h6>\n<p>Gl\u00f3ria Pires impressiona-se como as coisas ocorrem. &#8220;Estava engatilhada para fazer o Flores Raras quando Roberto (Berliner) me chamou para fazer a Nise. Ele estava tendo problemas com outra atriz, que ficou impossibilitada de fazer o papel e me prop\u00f4s come\u00e7armos imediatamente. Disse que adoraria, mas era imposs\u00edvel. E a\u00ed o Bruno (Barreto) me ligou dizendo que \u00edamos ter de retardar o Flores. Liguei correndo para o Roberto, expliquei para ele e foi assim que entrei no Nise. A dire\u00e7\u00e3o de arte j\u00e1 estava em Engenho de Dentro, reconstruindo o Hospital Pedro II e, enquanto o cen\u00e1rio avan\u00e7ava, n\u00f3s, o elenco, prepar\u00e1vamos nossos personagens. Foram dois meses muito intensos.&#8221;<\/p>\n<p>Nise, com o subt\u00edtulo O Cora\u00e7\u00e3o da Loucura, estreia nesta quinta, 21, em 83 salas do Pa\u00eds. Capitais, cidades importantes do interior. O Pa\u00eds est\u00e1 vivendo uma era de turbul\u00eancia &#8211; impeachment e tudo o mais &#8211; e o quadro n\u00e3o parece muito favor\u00e1vel \u00e0s estreias de cinema. Menos ainda a de um drama que retra\u00e7a a luta de uma pioneira &#8211; de uma guerreira &#8211; da psiquiatria brasileira para garantir tratamento humano aos internos de hospitais para doentes mentais. Nos anos 1940, numa \u00e9poca em que o internamento podia ser compuls\u00f3rio e os pacientes eram tratados com choques, quando n\u00e3o lobotomizados, a doutora Nise da Silveira introduziu a arte como terapia ocupacional. Ocorre que alguns de seus &#8216;louquinhos&#8217; eram tamb\u00e9m grandes artistas e chegaram a ser reconhecidos como tal.<\/p>\n<p>Da atividade da dra. Nise surgiu o Museu do Inconsciente. Um grande cineasta &#8211; Leon Hirszman &#8211; filmou Imagens do Inconsciente, documentando a obra de tr\u00eas pacientes da dra. Nise: Fernando Diniz, Adelina Gomes e Carlos Pertuis.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Nise deu muitas entrevistas, inspirou livros, artistas Faltava a cinebiografia. &#8220;S\u00f3 tenho de agradecer ao cinema por me permitir viver essas personagens ic\u00f4nicas&#8221;, diz Gl\u00f3ria Pires. Refere-se a Nise, claro, e a Lota Macedo Soares, a urbanista\/paisagista de Flores Raras. Como se constr\u00f3i uma personagem que existiu? S\u00f3 o roteiro basta? &#8220;O roteiro do Roberto foi muito bem documentado, mas a dra. Nise foi muito filmada. Existem muitos registros da imagem dela, da voz. Trabalhei com uma fonoaudi\u00f3loga e tamb\u00e9m com um preparador de elenco que fez o trabalho corporal do grupo de internos.&#8221;<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio diretor, presente na entrevista, revela. &#8220;Nise n\u00e3o nasceu como um projeto meu. Outro ia dirigir e eu terminei sendo exortado a assumir, quando ele saiu. Mas a verdade \u00e9 que me apaixonei pela hist\u00f3ria, pelos personagens.&#8221; Gl\u00f3ria prossegue &#8211; &#8220;Roberto era diretor de document\u00e1rios. Nise \u00e9 sua primeira fic\u00e7\u00e3o. Isso possibilitou uma integra\u00e7\u00e3o muito grande entre a gente. Sempre fui de dar pitacos nos roteiros dos filmes de que participo, mas nesse caso o pr\u00f3prio Roberto me questionava. E quando a gente terminava a jornada do dia, sentava para discutir, e antecipar, o dia seguinte.&#8221; Isso gerou um comprometimento muito grande, n\u00e3o apenas de Gl\u00f3ria, mas de toda a equipe. O resultado veio atrav\u00e9s de um pr\u00eamio de melhor atriz em T\u00f3quio e muitos elogios da cr\u00edtica, mesmo que a Nise de Gl\u00f3ria n\u00e3o seja uma unanimidade.<\/p>\n<p>Tem gente que acha sua Nise muito certinha, e ela era &#8216;louca&#8217; &#8211; de que outra maneira uma mulher, a \u00fanica de sua gera\u00e7\u00e3o na Faculdade de Medicina da Bahia, iria conseguir desmontar a estrutura retr\u00f3grada que alienava ainda mais os loucos? O come\u00e7o do filme j\u00e1 encerra uma met\u00e1fora. Gl\u00f3ria, como Nise, chega a esse pared\u00e3o imenso e come\u00e7a a bater numa porta de ferro. N\u00e3o a ouvem, e ela bate mais ainda, como se quisesse arrombar a porta &#8211; da institui\u00e7\u00e3o em que vai trabalhar. \u00c9 um mundo masculino, e de cara ela \u00e9 colocada sob suspeita. O trabalho com os internos \u00e9, de qualquer maneira &#8211; e de longe -, o melhor de Nise, mas o filme n\u00e3o deixa de revelar a mulher por tr\u00e1s do mito em que se converteu. &#8220;Ela sempre foi rebelde, essa \u00e9 a verdade.<\/p>\n<p>Lia muito, lia coisas que n\u00e3o eram recomendadas, at\u00e9 (Karl) Marx e, por conta disso, chegou a ser presa. O mais impressionante, e isso descobri depois, por acaso, \u00e9 que o tio-av\u00f4 de Lota Macedo Soares, Jos\u00e9 Carlos, foi o ministro (da Justi\u00e7a) que ordenou a liberta\u00e7\u00e3o de Nise e outras 300 pessoas encarceradas por suas ideias. Veja como as coisas se conectam.&#8221;<\/p>\n<p>Dando voz, uma identidade a Nise, Gl\u00f3ria est\u00e1 convencida de que, tudo o que ela fez, foi por amor e em nome do povo brasileiro, da\u00ed a atualidade de sua hist\u00f3ria. &#8220;Sinto-me uma privilegiada fazendo essas personagens. E as fa\u00e7o com base na viv\u00eancia. Meus pais eram maravilhosos, mas eram pessoas simples, com os p\u00e9s no ch\u00e3o. Quando falam no meu estilo econ\u00f4mico de interpretar, acho que tem a ver com isso. N\u00e3o \u00e9 preciso floreio. Minhas personagens tamb\u00e9m t\u00eam o p\u00e9 no ch\u00e3o, v\u00e3o at\u00e9 onde minha perna alcan\u00e7a.&#8221; Parece a deixa para falar do Oscar. Gl\u00f3ria virou &#8216;meme&#8217; por causa de sua participa\u00e7\u00e3o como comentarista do Oscar, na Globo, no come\u00e7o de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Nas redes sociais, muita gente caiu matando por sua indecis\u00e3o em opinar. &#8220;Mas n\u00e3o era nada disso&#8221;, defende-se. &#8220;Me perguntaram uma coisa muito espec\u00edfica, sobre a trilha de um filme e eu achei que seria leviandade opinar sobre algo que n\u00e3o \u00e9 da minha al\u00e7ada. Fui crucificada, como se n\u00e3o soubesse nada. \u00c9 uma coisa de pertencimento. As pessoas, nas redes sociais, se sentem donas. Opinam sobre tudo, mesmo n\u00e3o tendo opini\u00e3o sobre nada, e o jornalismo est\u00e1 indo atr\u00e1s&#8221; &#8211; reclama.<\/p>\n<p>De volta a Nise reflete &#8211; o que ficou com ela, dessa personagem imensa? &#8220;Acho que a resili\u00eancia. Dra. Nise amava as artes, mas n\u00e3o via seus internos, necessariamente, como artistas. Ela os estimulava, mas porque sentia que pintar, desenhar, recortar, esculpir era uma forma de se comunicar para eles, de expressar os dem\u00f4nios que os consumiam. E ela tinha compaix\u00e3o. N\u00e3o desistia facilmente, ou n\u00e3o desistia. Foi o que aprendi &#8211; quanto maior a dificuldade, maior o empenho.&#8221;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-70065\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/estadao.png\" alt=\"estadao\" width=\"99\" height=\"16\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Carlos Merten Gl\u00f3ria Pires impressiona-se como as coisas ocorrem. &#8220;Estava engatilhada para fazer o Flores Raras quando Roberto (Berliner) me chamou para fazer a Nise. Ele estava tendo problemas com outra atriz, que ficou impossibilitada de fazer o papel e me prop\u00f4s come\u00e7armos imediatamente. Disse que adoraria, mas era imposs\u00edvel. 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