{"id":98800,"date":"2016-04-22T06:04:14","date_gmt":"2016-04-22T09:04:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=98800"},"modified":"2016-04-22T06:04:14","modified_gmt":"2016-04-22T09:04:14","slug":"um-chaveiro-de-ouro-como-brinde-da-obra-prometida-por-geisel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-chaveiro-de-ouro-como-brinde-da-obra-prometida-por-geisel\/","title":{"rendered":"Um chaveiro de ouro como brinde da obra prometida por Geisel"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Escarlate<\/strong><\/p>\n<p>Uma iniciativa que se transformou no calcanhar de Aquiles do governo Geisel foi a Ferrovia do A\u00e7o, projeto por demais ambicioso que consumiu verbas elevadas, resultando num imenso fracasso. Projetada em 1970, durante o per\u00edodo do \u201cMilagre Brasileiro do governo M\u00e9dici, a Ferrovia do A\u00e7o destinava-se &#8211; pelo menos os planos eram esses &#8211; a escoar a produ\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio de ferro de Minas Gerais para a Companhia Sider\u00fargica Nacional, em Volta Redonda, e para a Companhia Sider\u00fargica Paulista, a Cosipa , em Cubat\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas tratativas para assumir o governo, Geisel prometeu a M\u00e9dici levar o projeto adiante. Com sua constru\u00e7\u00e3o anunciada em 1973, a obra efetivamente s\u00f3 teve in\u00edcio em 1974. Chamada Ferrovia dos Mil Dias, ela possui em seu trajeto mais de 100 t\u00faneis. Um deles, o maior do pa\u00eds, possui 8.600 metros de extens\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo o projeto, a Ferrovia do A\u00e7o \u2013 ent\u00e3o considerada uma obra de primeiro mundo \u2013 teria a extens\u00e3o de 834 quil\u00f4metros. Cada composi\u00e7\u00e3o teria cerca de 100 vag\u00f5es, puxados e empurrados por quatro locomotivas de tra\u00e7\u00e3o m\u00faltipla. Para a \u00e9poca, o custo do projeto impressionava: US$ 1,1 bilh\u00e3o. Nos planos iniciais, uma altera\u00e7\u00e3o. A ferrovia alcan\u00e7aria o novo porto de Sepetiba, no Rio, com um terminal exclusivo para exporta\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio.<\/p>\n<p>No lan\u00e7amento da pedra fundamental, com a presen\u00e7a de Geisel, l\u00e1 estavam os credenciados no Planalto. Entre eles, eu. Jeceaba, local da solenidade, era uma cidade pequena. Distante 124 quil\u00f4metros de Belo Horizonte, a cidade \u00e9 banhada pelo rio Paraopeba, um dos mais importantes afluente do S\u00e3o Francisco. Sua popula\u00e7\u00e3o, \u00e0 \u00e9poca, era de cerca de 2 mil habitantes.<\/p>\n<p>Na falta de hot\u00e9is \u2013 os poucos haviam sido ocupados por dirigentes de empreiteiras de olho no projeto e no dinheiro -, fomos alojados em um convento de freiras, em um imenso sal\u00e3o com camas do tipo patente. Al\u00e9m do travesseiro, recebemos uma colcha e um len\u00e7ol. Pior do que quartel. \u00c0 noite, frio intenso. Na falta de cobertores, alguns coleguinhas descobriram uma cacha\u00e7a mineira numa venda pr\u00f3xima, que fazia as vezes de cobertor. Quem gostava da fruta, dormiu bem. E quente. Nessa noite, sempre muito moleque, o Corn\u00e9lio infernizou a vida do jornalista Carlos Max Torres \u2013 o \u201cVelho Max\u201d- pela sua barba e \u00f3culos fundo de garrafa -, que fazia sua primeira viagem pela presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, sa\u00edmos bem cedo, depois de um caf\u00e9 da manh\u00e3 bem ralo, como os mineiros adoram. Minutos depois chegava o presidente, acompanhado dos ministros dos Transportes, que era o general Dirceu Nogueira, e de Minas e Energia, Aureliano Chaves. Al\u00e9m do frio, chovia muito. Geisel autorizou que eu e o Corn\u00e9lio sub\u00edssemos ao palanque, para nos abrigar. Ao meu lado, o Jo\u00e3o Pinheiro, fot\u00f3grafo do presidente. Os outros jornalistas ficaram em um palanque fronteiro, coberto, mas entupido de gente.<\/p>\n<p>Um cidad\u00e3o, presidente de uma empreiteira que havia sido aquinhoada com uma parcela da licita\u00e7\u00e3o, come\u00e7ou a entregar a v\u00e1rias autoridades chaveiros de ouro com inscri\u00e7\u00e3o alusiva ao in\u00edcio das obras. O Corn\u00e9lio j\u00e1 havia descido e no palanque restava eu. Voltando-se para mim o homem disse: \u201cEste \u00e9 para o senhor, doutor\u201d \u2013 por conta dos meus cabelos j\u00e1 grisalhos. Agradeci, honrado pelo \u201cdoutor\u201d, recebendo o tal chaveiro de ouro como recompensa por ter passado muito frio e perdido uma noite de sono.<\/p>\n<p>Na volta ao Planalto fui ao Servi\u00e7o de Seguran\u00e7a entregar o \u201cbrinde\u201d ao coronel Pedroso. \u201cEle \u00e9 seu\u201d \u2013 disse Pedroso. \u201cFoi presente dado pelo presidente de uma empreiteira. N\u00e3o temos nada contra\u201d \u2013 aduziu. Guardo o tal chaveiro comigo at\u00e9 hoje, sem jamais t\u00ea-lo usado.<\/p>\n<p>Resumo da \u00f3pera: V\u00e1rios trechos da ferrovia foram abandonados. O material destinado \u00e0 eletrifica\u00e7\u00e3o da estrada \u2013 locomotivas, transformadores \u2013 importado da Inglaterra e que custou cerca de meio bilh\u00e3o de d\u00f3lares, em valores da \u00e9poca, apodreceu num galp\u00e3o da antiga Rede Ferrovi\u00e1ria Federal, na cidade paulista de Cruzeiro.Trata-se de um monumento ao descaso do poder p\u00fablico em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-83053\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/PV.png\" alt=\"PV\" width=\"122\" height=\"26\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Escarlate Uma iniciativa que se transformou no calcanhar de Aquiles do governo Geisel foi a Ferrovia do A\u00e7o, projeto por demais ambicioso que consumiu verbas elevadas, resultando num imenso fracasso. 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