{"id":99931,"date":"2016-04-30T10:13:25","date_gmt":"2016-04-30T13:13:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=99931"},"modified":"2016-04-30T14:01:23","modified_gmt":"2016-04-30T17:01:23","slug":"corrupcao-coloca-em-xeque-o-sistema-politico-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/corrupcao-coloca-em-xeque-o-sistema-politico-brasileiro\/","title":{"rendered":"Corrup\u00e7\u00e3o apurada na Lava Jato coloca em xeque sistema pol\u00edtico brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Akemi Nitahara, Camila Boehm, Heloisa Cristaldo<\/strong><\/p>\n<p>Pesquisa divulgada nesta semana pelo Ibope mostrou a insatisfa\u00e7\u00e3o dos brasileiros com a democracia no pa\u00eds. O levantamento apontou que 83% dos brasileiros est\u00e3o pouco ou nada satisfeitos com o funcionamento do sistema pol\u00edtico. O \u00edndice de satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 o menor desde que o instituto iniciou a medi\u00e7\u00e3o em 2008. O recorde anterior de insatisfa\u00e7\u00e3o foi registrado em 2015, quando 81% declararam-se pouco ou nada satisfeitos com a democracia no Brasil, contra 15% que afirmaram estar satisfeitos ou muito satisfeitos.<\/p>\n<p>Para especialistas, o resultado da pesquisa mostra a insatisfa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es do Estado e o impacto dos casos de corrup\u00e7\u00e3o investigados, al\u00e9m de colocar o regime democr\u00e1tico em xeque no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do cientista pol\u00edtico e professor de jornalismo do Centro Universit\u00e1rio de Bras\u00edlia (UniCeub), Vivaldo de Sousa, os dados da pesquisa revelam que turbul\u00eancias pol\u00edticas, como o cen\u00e1rio atual enfrentado pelo pa\u00eds, podem enfraquecer a democracia. \u201c\u00c9 um dado preocupante. Fora que se tem uma parte importante da sociedade com essa avalia\u00e7\u00e3o e, com isso, se tem espa\u00e7o para propostas autorit\u00e1rias; me preocupa, porque a democracia, por mais falha que seja, \u00e9 o melhor sistema pol\u00edtico que existe\u201d, disse.<\/p>\n<p>Foram ouvidas 2.022 pessoas em 142 munic\u00edpios, entre 14 e 18 de abril. A margem de erro \u00e9 de dois pontos percentuais para mais ou para menos.<\/p>\n<p>O Ibope perguntou tamb\u00e9m qual o sistema pol\u00edtico preferido dos brasileiros. Quarenta por cento afirmaram que a democracia \u00e9 prefer\u00edvel a qualquer outra forma de governo. Para 15%, em algumas circunst\u00e2ncias, um governo autorit\u00e1rio pode ser prefer\u00edvel a um governo democr\u00e1tico, taxa inferior \u00e0 registrada em 2014 (20%). Conforme o levantamento, o \u00fanico \u00edndice que cresceu \u00e9 a concord\u00e2ncia com a seguinte frase: \u201cPara as pessoas em geral, d\u00e1 na mesma se um regime \u00e9 democr\u00e1tico ou n\u00e3o\u201d, que passou de 18%, em 2014, para 34%, em 2016.<\/p>\n<p>Para o cientista pol\u00edtico Jo\u00e3o Feres Junior, do Instituto de Estudos Sociais e Pol\u00edticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp\/Uerj), a taxa de apoio \u00e0 democracia no Brasil \u00e9 tradicionalmente baixa, em compara\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses, e isso tende a piorar por causa das descobertas e investiga\u00e7\u00f5es de casos de corrup\u00e7\u00e3o, amplamente noticiadas pela imprensa.<\/p>\n<p>\u201cA cobertura pol\u00edtica hoje em dia \u00e9 basicamente a corrup\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o isso fica pior ainda. \u00c9 natural que as pessoas vejam a democracia com descr\u00e9dito e que tenha pessoas que fiquem falando que a ditadura seria melhor. Eu acho que \u00e9 parte da intensa campanha de deslegitima\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, que a m\u00eddia promoveu nos \u00faltimos anos, mais de uma d\u00e9cada\u201d.<\/p>\n<p>Feres Junior acredita que o per\u00edodo eleitoral \u00e9 importante para a politiza\u00e7\u00e3o da sociedade, pois \u00e9 o \u00fanico momento em que a popula\u00e7\u00e3o tem acesso a informa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Para ele, a baixa ades\u00e3o \u00e0 democracia tamb\u00e9m se deve ao fato de ser um conceito abstrato e estar pouco presente no dia a dia das pessoas.<\/p>\n<p>\u201cPara a vida cotidiana, n\u00e3o faz quase diferen\u00e7a nenhuma se est\u00e1 em um regime de uma maneira ou de outra, pelo menos ela [a sociedade] n\u00e3o consegue articular as diferen\u00e7as de regime dessa maneira. Colocar essa quest\u00e3o dessa forma \u00e9 muito intelectualizada. Para a maioria das pessoas, n\u00e3o \u00e9 palp\u00e1vel, elas n\u00e3o t\u00eam contato com a democracia, com o Parlamento, nada disso; pelo contr\u00e1rio, o \u00fanico contato que t\u00eam geralmente \u00e9 por meio da m\u00eddia, que mostra que eles roubam o seu dinheiro. Para a maioria, \u00e9 uma coisa exterior e ruim no dia a dia\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com o professor da Funda\u00e7\u00e3o Escola de Sociologia e Pol\u00edtica de S\u00e3o Paulo, Paulo Silvino Ribeiro, a interpreta\u00e7\u00e3o de que as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas n\u00e3o funcionam \u00e9 um elemento relevante para entender os dados da pesquisa. \u201cSe o Estado n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es ou n\u00e3o tem assegurado suas obriga\u00e7\u00f5es, e dada a frustra\u00e7\u00e3o que as pessoas t\u00eam \u2013 seja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crise econ\u00f4mica, seja em rela\u00e7\u00e3o aos reiterados casos de corrup\u00e7\u00e3o que v\u00eam \u00e0 tona \u2013 contribuem para o descr\u00e9dito da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso que se diga [que os casos de corrup\u00e7\u00e3o] n\u00e3o foram criados ou estimulados ou inventados pelo PT, mas est\u00e3o a\u00ed h\u00e1 d\u00e9cadas, se pensarmos nesses \u00faltimos governos democr\u00e1ticos\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p><strong>Autoritarismo<\/strong> &#8211;\u00a0Em rela\u00e7\u00e3o ao percentual de entrevistados que afirmaram preferir um regime autorit\u00e1rio ao democr\u00e1tico, Paulo Silvino Ribeiro avalia que parte da sociedade tem interpreta\u00e7\u00e3o equivocada do que foi a ditadura militar, por exemplo, no pa\u00eds, e aponta a aus\u00eancia de engajamento pol\u00edtico dos brasileiros.<\/p>\n<p>\u201cEssa porcentagem \u00e9 uma leitura equivocada, faz sentido quando sabemos que, para o senso comum, foi no regime militar que houve relativo crescimento econ\u00f4mico, que haveria uma ordem \u2013 e quando falamos de ordem, falamos evidentemente de um policiamento mais ostensivo \u2013, uma defesa de valores e no\u00e7\u00f5es absolutamente conservadoras e reacion\u00e1rias, que transitam muito bem no imagin\u00e1rio social\u201d.<\/p>\n<p><strong>Novas elei\u00e7\u00f5es<\/strong> &#8211;\u00a0Conforme a pesquisa, 62% dos entrevistados disseram que preferem novas elei\u00e7\u00f5es presidenciais, que apontam como a melhor forma de superar a crise pol\u00edtica. De acordo com o levantamento, 25% da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o a favor da perman\u00eancia da presidenta Dilma Rousseff e 8% acham que um eventual governo de Michel Temer resolveria a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o cientista pol\u00edtico Jo\u00e3o Feres Junior, o resultado de que 62% querem o fim do atual governo pode ser um reflexo da crise econ\u00f4mica. \u201cEssa coisa de quererem que o governo saia, provavelmente \u00e9 o produto de uma certa crise econ\u00f4mica, quando a economia n\u00e3o est\u00e1 bem, e tamb\u00e9m do fato desse notici\u00e1rio contra a corrup\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Entre os que afirmam ter votado em Dilma na elei\u00e7\u00e3o de 2014, 45% apoiam a continuidade de seu governo e 44% preferem novas elei\u00e7\u00f5es. Por outro lado, 77% dos que dizem ter votado em A\u00e9cio Neves, que concorreu no pleito de 2014 pelo PSDB, acreditam que a solu\u00e7\u00e3o para a crise pol\u00edtica \u00e9 a sa\u00edda de Dilma e Temer, com a convoca\u00e7\u00e3o de nova elei\u00e7\u00e3o presidencial.<\/p>\n<p>De acordo com Feres Junior, esse tipo de pesquisa de opini\u00e3o deve ser analisada tamb\u00e9m por outra \u00f3tica, que n\u00e3o a expressa diretamente nas perguntas. \u201cDe fato, a pesquisa mostra, e \u00e9 ineg\u00e1vel, que Michel Temer n\u00e3o goza de popularidade. Eu n\u00e3o sei quantas pessoas de fato o conhecem, n\u00f3s que acompanhamos pol\u00edtica sabemos quem ele \u00e9, mas as pessoas n\u00e3o sabem, votaram na Dilma. N\u00e3o fazem a m\u00ednima ideia de quem \u00e9 esse cara, s\u00f3 os antipetistas malucos que est\u00e3o falando isso\u201d.<\/p>\n<p>Para Feres, isso mostra que um eventual governo Temer ter\u00e1 que lutar contra o desconhecimento ou mesmo a rejei\u00e7\u00e3o. \u201cOutra coisa que o dado n\u00e3o mostra \u00e9 se isso \u00e9 desconhecimento ou se j\u00e1 \u00e9 rejei\u00e7\u00e3o [a Temer]\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA an\u00e1lise mais direta \u00e9 que a popula\u00e7\u00e3o prefere novas elei\u00e7\u00f5es. Dilma [Rousseff] ainda tem um eleitorado maior que o [vice-presidente Michel] Temer e h\u00e1 um percentual pequeno que acha que ele seria uma solu\u00e7\u00e3o melhor que a presidenta. No entanto, a popula\u00e7\u00e3o acha que nenhum dos dois vai resolver a crise que est\u00e1 a\u00ed\u201d, afirmou o professor do UniCeub Vivaldo de Sousa.<\/p>\n<p><strong>Impeachment<\/strong> &#8211;\u00a0Para Sousa, o processo de impeachment de Dilma Rousseff n\u00e3o pode ser considerado um golpe, como defendem os apoiadores da presidenta, e \u201cmostra vigor da democracia porque est\u00e1 resolvendo isso com algo institucional\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPodemos criticar o Legislativo, mas o Supremo [Tribunal Federal] foi consultado, a presidenta vai poder se defender. O termo golpe vem sendo usado pelo governo, pelo PT, do ponto de vista de campanha. As pedaladas [fiscais], na minha opini\u00e3o, n\u00e3o poderiam ser consideradas como crime de responsabilidade \u2013 as pedaladas n\u00e3o seriam um tipo suficiente para embasar essa decis\u00e3o. No entanto, o pedido de impeachment n\u00e3o \u00e9 apenas legal, jur\u00eddico, \u00e9 [tamb\u00e9m] um processo pol\u00edtico\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>J\u00e1 o professor Paulo Silvino Ribeiro disse que a crise econ\u00f4mica \u201cengrossa\u201d o discurso pr\u00f3-impeachment como solu\u00e7\u00e3o para a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u201cEvidentemente uma na\u00e7\u00e3o frustrada e angustiada com tantos problemas sociais e econ\u00f4micos acaba por engrossar o discurso e o coro pr\u00f3-impeachment, porque entende que o impeachment seria uma moraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, seria o come\u00e7o de uma nova era\u201d, disse Ribeiro, que n\u00e3o acredita que o pa\u00eds esteja vivendo o fracasso de governos democr\u00e1ticos, mas sim a dificuldade de consolidar o regime pol\u00edtico.<\/p>\n<p>\u201cNossa democracia ainda n\u00e3o construiu a imunidade necess\u00e1ria contra golpes. A democracia brasileira est\u00e1 em um processo de constru\u00e7\u00e3o permanente. Acho que, por ser um processo em curso, o que temos \u00e9 uma fragilidade que permite, portanto, que investiduras, projetos conservadores, autorit\u00e1rios e golpistas possam se organizar\u201d, observou.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Akemi Nitahara, Camila Boehm, Heloisa Cristaldo Pesquisa divulgada nesta semana pelo Ibope mostrou a insatisfa\u00e7\u00e3o dos brasileiros com a democracia no pa\u00eds. O levantamento apontou que 83% dos brasileiros est\u00e3o pouco ou nada satisfeitos com o funcionamento do sistema pol\u00edtico. 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