Ele se definia como um necromante, isto é, alguém capaz de se comunicar com os espíritos dos mortos. Também poderia se declarar, com motivos de sobra, um mago, bruxo ou feiticeiro, mas dava prioridade ao talento inato de ver e se comunicar com os falecidos, e não a habilidades laboriosamente adquiridas ou pelo menos refinadas em escolas para bruxos ou sociedades iniciáticas.
Fisicamente, ele parecia o protagonista humano (não o monstro, vampiro ou coisas desse tipo) de um filme de terror de baixo orçamento: alto, magro, rosto de caveira, olhos fundos. Um esqueleto, não fosse o nariz adunco, de águia, que desaparece após a morte, juntamente com as demais cartilagens (a propósito, tinha orelhas pontudas, semelhantes às de um lince ou, vá lá, de um elfo). Não lhe faltavam clientes, que pagavam caro para assistir à materialização de seus entes queridos, saber de suas próprias bocas de segredos que estes haviam levado para o túmulo, coisas assim. Ele garantia uma comunicação genuína, bem diferente daquela dos falsos médiuns que enganam os otários.
Certo dia, fixou-se na cidade um segundo necromante. Talvez os dotes psíquicos moldassem o corpo físico, o fato é que era outro esqueleto ambulante. Na verdade, o recém-chegado poderia ser irmão gêmeo do primeiro. E necromantes são piores que os imortais do filme Highlander: só pode haver um. Tremendo de raiva, contataram-se no plano psíquico e marcaram o dia para o arranca-rabo.
A batalha épica entre os necromantes estendeu-se a vários planos espirituais. Num deles, confrontaram-se zumbis mobilizados por ambos; foi um embate não sangrento, mas de membros dilacerados e que, como previsível, terminou sem vencedores.
O mesmo equilíbrio de forças ocorreu em outras dimensões. Mantícoras, grifos e outros monstros arregimentados pelos dois necromantes neutralizaram-se reciprocamente. Isso também aconteceu entre vampiros, trolls e outras entidades de pesadelo. Houve até mesmo embates entre fantasmas, incapazes de ferir-se. Todos eram peças trocadas num jogo de xadrez cósmico, destinado a apontar o único sobrevivente.
Afinal, em determinado plano, um deles obteve uma leve supremacia. Qual, impossível dizer, ambos tinham os rostos desfigurados pelo ódio recíproco e pela tensão psíquica resultante da manipulação de tantos seres sobrenaturais. Tampouco posso informar em qual plano, e qual movimento garantiu a hegemonia. De qualquer modo, foi o bastante para definir o vencedor.
Não houve cabeças cortadas, como em Highlander, que necromantes se confrontam apenas nos planos psíquicos. Sei apenas que desolado, depois de recuperar as forças, um dos necromantes deixou para sempre a cidade. Não me perguntem qual deles.

