Breno, a música, o distintivo e o ato de dar as mãos a quem precisa

Redação
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José Seabra, foto Acervo Pessoal

Quem sobreviveu 35 anos desde que entrou na casa das ‘enta’, sabe muito bem as maneiras diferentes de como meninos passam pela infância, como muitos deles vivem carregando a adolescência pela vida inteira. Breno Duarte pertence à essa categoria, mesmo que só agora esteja entrando nos quarenta.

Para contar sua história, porém, talvez seja necessário inventar dois meninos. Dois garotos humildes, nascidos em cidades diferentes, separados pela geografia, mas unidos pela vontade de vencer, uma coisa que não cabe nos mapas.

O primeiro poderia ser o menino da porteira. Mas um menino da porteira diferente daquele eternizado na canção que atravessou gerações na voz de Sérgio Reis. O nosso menino enganou o destino, porque não ficou esperando o boiadeiro passar e não permaneceu sob a cruz da estrada de Ouro Fino. Simplesmente abriu a porteira, atravessou-a e foi embora atrás daquilo que existia do outro lado.

O segundo menino parece ter escapado de uma canção de Ataulfo Alves. Também olhou para o Natal com os olhos enormes de quem ainda acredita que Papai Noel consegue carregar sonhos dentro de um saco vermelho. E, se pudesse fazer seu pedido, talvez não quisesse brinquedo caro, apenas um pandeiro e uma cuíca, porque havia música dentro dele.

Curiosamente, os dois meninos são um só. Diria até que são clones perfeitos um do outro. E podemos dar a ambos o mesmo nome de Breno Duarte, justamente o menino que nasceu em Abaeté, não a escura lagoa cantada pela Bahia de Dorival Caymmi, mas a pequena cidade mineira, dessas onde as ruas parecem guardar os passos das crianças e onde quase todo mundo sabe de quem é o filho que passa correndo pela praça.

Foi ali que, aos 10 anos, ele começou a crescer junto com a música. Talvez não soubesse ainda, mas cada nota aprendida era também uma lição para a vida. A música ensina disciplina, que existe hora de entrar, hora de silenciar e, sobretudo, hora de ouvir. E quem aprende a ouvir um instrumento acaba, muitas vezes, aprendendo também a ouvir gente.

Breno cresceu assim e a porteira ficou para trás, co destino a Belo Horizonte, os livros, as madrugadas de estudo, as dúvidas que acompanham qualquer jovem que deixa a segurança do lugar onde nasceu para enfrentar um mundo muito maior.

Aos 23 anos, estava formado e pós-graduado em Direito. Poderia mesmo ter considerado aquilo uma chegada, mas preferiu entender como começo. Foi então que voltou para Abaeté, onde, contudo, não regressou derrotado, mas carregando diplomas e um novo sonho debaixo do braço. Sentou-se outra vez diante dos livros e decidiu estudar para concurso público. enfrentando uma das mais solitárias maratonas da vida adulta.

Passou em um, depois em outro e por fim a terceira aprovação. Há quem chame isso de sorte, mas quem conhece o caminho percorrido sabe que sorte costuma ser apenas o nome elegante que algumas pessoas dão ao suor alheio.

Breno acabou chegando a Brasília, onde se tornou policial civil. E aqui a história poderia terminar.

O menino pobre venceu. Estudou. Formou-se. Passou em concursos. Tornou-se servidor público. Construiu sua vida. Final feliz, eu diria, após conhecer sua história, mas seria pouco. Porque a parte mais bonita começa justamente depois da vitória.

Breno decidiu voltar a conversar com aquele garoto de 10 anos. Não através de fotografias antigas nem pela melancolia dos adultos que suspiram dizendo que eram felizes e não sabiam. Ele encontrou outra maneira de regressar ao passado, ao olhar para as crianças de hoje.

É quando incentiva um menino a estudar, que Breno conversa com o Breno que um dia foi. Quando diz a uma criança que ela pode prosperar, está talvez repetindo aquilo que gostaria de ter ouvido muitas vezes. E quando mostra que origem humilde não precisa ser sentença, abre uma porteira.

E talvez esteja aí a grandeza de sua caminhada. Subir na vida é importante. Mais bonito, porém, é subir e estender a mão para quem ainda está lá embaixo.

Criado em uma família conservadora, cercado por princípios e valores cristãos-kardecistas, Breno carregou nos ombros, n amente e no coração uma compreensão simples, mas cada vez mais rara. Justamente porque não basta tornar-se alguém na vida; é preciso tornar-se alguém para a vida dos outros.

Não se trata apenas de caridade, mas fraternidade. É compreender que diplomas, cargos, salários e conquistas são passageiros se não produzirem alguma coisa além de conforto pessoal.

Por isso, talvez o policial seja apenas uma das muitas fardas invisíveis que Breno veste. Nele existe o músico, o bacharel em Direito, o concurseiro que conheceu a solidão dos livros, o menino de Abaeté e há, sobretudo, o homem que descobriu que prosperar não significa simplesmente chegar mais alto. Significa ter condições de olhar para baixo sem arrogância, para os lados sem inveja e para cima sem esquecer de agradecer.

No fundo, continuo vendo em Breno aqueles dois meninos. Um deles está diante de uma porteira. O outro segura imaginariamente um pandeiro e uma cuíca. Um quer conhecer a estrada, enquanto o outro quer descobrir a música.

Os dois crescem e estudam, mesmo que eventualmente caiam algumas vezes. Mas, resilientes, se poem de pé. Até que, muitos anos depois, se encontram em Brasília. Olham um para o outro e percebem que jamais foram dois. Eram apenas as duas metades de uma mesma história.

A história de Breno Duarte, o menino não ficou esperando o boiadeiro e abriu a porteira. O menino do pandeiro não esperou Papai Noel, e foi buscar sozinho o seu presente.

E hoje, quando Breno se aproxima de uma criança e diz “estude, acredite, você pode chegar lá”, talvez nem perceba o tamanho do que está fazendo. No fundo, ele está abrindo outra porteira para que o outro menino atravesse. E esse novo menino, quem sabe, muitos anos depois, volte para abri-la para alguém também.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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