Da UTI para o mausoléu das instituições que um dia bem serviram ao país, o Supremo Tribunal Federal precisou de apenas uma sessão denominada especial e que, inicialmente, serviria para que a Corte, em processo de depuração, começasse a cortar na própria carne. Não foi o que vimos para justificar a expressão que significa impor sacrifícios, renunciar a privilégios ou cortar gastos a si mesmo ou ao grupo, em vez de prejudicar os outros. O que poderia ser um acordão para que os grupos da Corte parassem temporariamente de lutar, algo como um armistício, terminou em batalha campal.
Depois do ringue armado quase a céu aberto, o sangue que jorrava por poros quase invisíveis deve espirrar nas próximas semanas por todo o Tribunal. No centro do ringue, o ministro Alexandre de Moraes, cujas luvas estão em frangalhos, teve à esquerda de seu corner a colaboração de sparrings profissionais, entre eles o head coach (treinador principal) Gilmar Mendes, o treinador auxiliar Flávio Dino e o cutman (auxiliar de ringue) Cristiano Zanin. Se uniram, mas esqueceram de combinar com os russos.
Tudo ia bem até que a falta de critérios do juiz principal obrigou a equipe de Moraes a mudar a estratégia acertada para o combate. É desnecessário dizer que a ideia era jogar no mesmo tablado de Moraes, o quase ex-Xandão, o ministro André Gonçalves, acusado de vazar áudios duvidosos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro comprometendo Alexandre de Moraes até o último fio de cabelo. Na verdade, até o que restou de sua metafórica cabeleira de super-herói.
Da guerra fratricida, seguido do tiroteio daqui para lá e de lá para cá, só se salvaram as paredes, as bancadas, as cadeiras e o teto do plenário da Corte Suprema. O restante, incluindo os atuais dez membros da Casa, desapareceu como a poeira que um dia sustentou a Casa de Suplicação do Brasil e o Supremo Tribunal de Justiça, nomes como o STF era conhecido, respectivamente, no período colonial e durante o Império. Triste, mas é a verdade nua e crua sobre o Tribunal criado para ser poder moderador.
Em uma ou duas semanas, virou um poder desmoralizado e desmoronado. De donos da verdade, os juízes do povo se transformaram, constrangedoramente, em pugilistas informais, os quais, mesmo com seus potentes diretos, são como peixes, ou seja, capazes de morrer pela boca em apenas uma sessão. Pior do que isso só o Congresso Nacional, espaço reservado para expressiva parcela da sociedade, notadamente da elite, em condição de decadência moral, isto é, na sarjeta social, mas olhando para as estrelas.
Enfim, são os ministros do STF de 2026 e seus altíssimos salários servindo como referência para a administração do país. Salários altos, mas baixos se comparados com a força do poder econômico e corruptor de Daniel Vorcaro. Por sua culpa (de Vorcaro) e obviamente por conveniência de algumas das excelências, o Supremo está na lama, de onde dificilmente sairá nas próximas semanas, meses e anos. Digo isso porque não há dúvida de que Moraes e seu grupo tentarão levar para o meio do ringue o pessoal de André Mendonça.
Considerando o vazamento de novas e comprometedoras conversas de Vorcaro, a tarefa parece facílima. Além de candidatos presidenciais, senadores, ex-ministros e ministros do STF, filhos de ministros do Tribunal estão entre os que chamavam o ex-dono do Master de irmãozinho. Que se dane a República, mas importante para boa parte das excelências dos Três Poderes é o poder. No caso do Supremo Tribunal, tão relevante como o poder é o controle das investigações do caso Master. Portanto, não se surpreendam se o sangue do plenário alcançar o povo antes mesmo das eleições de 4 de outubro. Deus salve o STF, o Brasil e os brasileiros de bem.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

