Pobre vira rei para políticos na época da colheita dos votos para as urnas

Redação
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Sonja Tavares - Foto de Arquivo

Contrário a qualquer cidadão ou cidadã que distingue o semelhante pela cor da pele, pela opção sexual, pelo credo e, principalmente, pela condição social, jamais esperei atitudes nobres de pessoas pobres de espírito. Nada as satisfaz, a não ser desejar o mal ao alheio, a ironia e o deboche. Apesar de não me surpreender, ainda me incomodo com aqueles que, por pura arrogância, se sentem superiores como se isso fosse um sinônimo de grandeza. São os tais ricos de rancor, vingança, inveja, egocentrismo e golpismo.

São os que, se aproveitando das facilidades do sistema, fabricam pobres e depois convencem o mundo de que a culpa é deles. É por causa desses tipos que eu voto em que eu voto desde que os esvaziados de si mesmo começaram a buscar o poder insana, nervosa e raivosamente. Na ausência dele, provavelmente aproveitarei a idade para aposentar o título de eleitor. Não tenho prazer algum em escrever sobre pobres, tampouco a respeito da pobreza.

Todavia não dá para deixar pra lá o que tenho ouvido dos que, sem as máscaras do cabotinismo e as vendas da hipocrisia, escancaram o desprezo pela metabolia de classes. De cara limpa e com a boca ostensivamente aberta, eles não se incomodam com a prática da aporofobia, que é a aversão ou rejeição a quem está em situação de pobreza. Preocupantemente, o preconceito social chegou e fincou raízes na política grupal, aquela que é defendida com unhas, dentes e, às vezes, com bazucas e canhões pela direita e pela extrema-direita.

Para esses dois segmentos ideológicos, o dinheiro e o poder valem mais do que uma vida. Tanto que, para ideólogos e aliados dessas seitas, pobres são somente serviçais. Eles só têm importância no período eleitoral, também conhecido como a temporada de caça aos pobres. É a época do vale tudo por um voto. Candidatos conservadores e os que raramente se misturam aproveitam para pegar o bonde ou o buzão e partir ferozmente para a colheita. É o tempo em que os esquecidos pobres viram celebridades por algumas semanas.

Com o ranço que lhes é peculiar, pegam o pobre, beijam o pobre, abraçam o pobre, tiram foto com o pobre, fazem chuca chuca no cabelo do filho do pobre e até colocam o menino pobre no colo e no Instagram. Os menos bestas vão à casa do pobre, fazem reunião com o pobre, escutam o pobre, prometem mundos e fundos para o pobre, mas depois de eleito nem reconhecem o pobre. Conforme a tese chicoanysiana, políticos como esses têm vida longa exclusivamente porque os brasileiros têm memória curta.

Sou uma democrata de quatro costados e, por isso, entendo que ricos e pobres devem votar em quem bem entenderem. O problema é o patrulhamento. Conheço pobres como eu que se aborrecem quando informo sobre minha preferência política. O que fazer? Rezar e lamentar pela descoberta de uma nova figura no Brasil: o pobre de elite. Seus representantes falam e pensam como rico, defendem os mesmos valores dos ricos, mas, na hora do PIX e do boleto, são trabalhadores como todos.

Eles não têm patrimônio, nem poder econômico, mas têm orgulho de apoiar e marchar com quem sempre o explorou. É o orgulho tentando dizer à insanidade que aquele ser é melhor do que os que pensam diferente. Considerando que pobres não são as pessoas sem dinheiro ou com situação financeira melindrosa, mas as que não dispõem de dignidade, humildade, respeito e caráter, reitero que prefiro minha suposta cegueira política à soberba dos que se acham acima de tudo e de todos. É por essa razão que, perdendo ou ganhando, eu voto em quem eu voto.

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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras

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