Fui com Juliana à missa de sétimo dia da mãe de um amigo. Fomos por ele, para estar perto, prestar solidariedade, fazer companhia num momento em que quase tudo o que se diz parece insuficiente e, no fundo, a presença acaba valendo mais do que qualquer tentativa de encontrar a frase certa.
Não sou católico e nunca consegui colocar minha relação com religião, fé e espiritualidade dentro de uma gaveta muito bem definida. Sou filho de pai judeu e mãe católica, ambos já falecidos, e talvez venha daí uma certa familiaridade com caminhos diferentes. Já entrei em igrejas, sinagogas e outros templos religiosos sem sentir que precisava escolher previamente de que lado estava. Esses lugares sempre me fizeram bem. Pode ser pelo silêncio, pelo rito, pela atmosfera ou simplesmente porque ali, durante algum tempo, a vida parece baixar o volume e nos obriga a conviver com perguntas que normalmente empurramos para depois.
A missa seguia, eu acompanhava o que conhecia e respeitava o que não conhecia, até o momento em que o padre começou a dizer os nomes das pessoas lembradas naquela celebração. De todos eles eu conhecia apenas um, o da mãe do meu amigo. Enquanto ele prosseguia, aconteceu uma coisa difícil de explicar sem dar a ela uma importância que talvez não tenha tido para mais ninguém além de mim.
Começaram a passar pela minha memória pessoas queridas que já morreram.
Meu pai, minha mãe e outros que fizeram parte da minha vida apareceram quase ao mesmo tempo, embora agora, escrevendo, eu tente dar uma ordem que naquele instante não existiu. Não houve sequência, parentesco ou cronologia. Vieram rostos, gestos, uma voz aqui, uma lembrança ali, coisas pequenas que só fazem sentido para quem conviveu. Foi tudo muito rápido e, justamente por isso, talvez tão nítido.
O curioso é que não me veio tristeza.
A morte costuma sequestrar a lembrança e reorganizá-la pela ausência. A gente pensa em quem não está mais à mesa, em quem deixou de telefonar, num aniversário, numa música, numa expressão que alguém usava. Aos poucos, quase sem perceber, passamos a lembrar mais da falta do que da pessoa. Naquela noite, por alguns segundos, aconteceu diferente. Eles não estavam mortos dentro da minha memória. Estavam vivos porque tinham vivido comigo.
Juliana permanecia ao meu lado e não percebeu nada, porque nada havia para ser percebido de fora. O padre continuou, a missa seguiu seu curso, as pessoas acompanharam as orações e eu fiquei ali com aquela passagem silenciosa de gente que já não encontro há muito tempo.
Não tenho interesse em transformar isso numa resposta religiosa que não possuo. Não sei se foi o ambiente, se foram os nomes pronunciados pelo padre, se foi a proximidade com a dor de um amigo ou se a memória simplesmente encontrou naquele momento espaço para trazer de volta o que o cotidiano costuma manter guardado. Não recebi sinal algum, não descobri o que existe depois da morte e tampouco saí dali com minha espiritualidade mais organizada do que quando entrei.
Saí, porém, com uma paz difícil de explicar e sem muita necessidade de explicá-la.
Fui à missa por causa da mãe de um amigo, morta sete dias antes, e era dela o único nome que eu conhecia entre os pronunciados pelo padre. Ainda assim, enquanto ele os dizia, vieram os meus.
Por alguns segundos, a ausência perdeu espaço para a lembrança de que, antes de partirem, todos eles estiveram aqui.
E isso, naquela noite, bastou.

