A percepção majoritária de que a política no Brasil se aproxima do humor ou do absurdo é um tema recorrente no debate público e na cultura nacional. Fonte inesgotável para comediantes, analistas e influencers, o período pré e pós-eleitoral supera a ficção e dispensa a necessidade de criações mais elaboradas. É nos teatros, ruas, praças e avenidas do país que o eleitorado nacional e regional acompanha a espetacularização dos candidatos. Com campanhas e declarações inusitadas, eles transformam o cenário institucional em um picadeiro surreal.
Diante da opinião pública com um mínimo de inteligência, o horário eleitoral, os comícios e a apresentação dos postulantes à Presidência da República, aos governos estaduais, Câmara Federal, Senado e assembleias legislativas são, sem margem de erro, para a direita ou para a esquerda, um circo político sem lonas. É por isso que, associada à bizarrice dos políticos com mandato, o despreparo dos que almejam virar excelência nos obriga a ver a política brasileira jogada no lixo. O pior é que os sérios não se arriscam a tirá-la da lixeira.
O uso do sarcasmo e de figuras exóticas nas urnas reflete a ironia e o descontentamento dos eleitores com seus representantes. É verdade que rir é muito bom. Ruim é fazer da política uma piada. É o caso de candidatos que se apresentam com nomes fora dos padrões, apostando no humor como forma de chamar atenção e, consequentemente, angariar votos. Infelizmente, alguns conseguem. O deputado federal Tiririca que o diga. Com uma rápida tietagem no Google, descobri que, caso queira, posso votar em Plínio Trump, Deusa do Cras, Chupa Cabra, Batata Neles, Zero Meia Dois e Vovó Tsunami.
Nada tão esdrúxulo e idiota como os candidatos Trezoitão, Zé Ninguém, Lula do Bem, Bolsonaro da Shopee, Acaba Não Mundão e Gugu Liberato. O problema é que eleger quem é bonitinho, engraçado ou criador de bordões acima da média alimenta o descrédito nas chamadas instituições democráticas e afasta das urnas aqueles que, como eu, preferem ver a galhofa de candidatos como mais uma ferramenta de desconstrução do poder vigente. Por conta da falta de consciência, da pasmaceira do eleitor e do vale tudo partidário, o fato é que hoje qualquer um consegue se eleger no Brasil até para papa.
Lembrando que um dos momentos mais inusitados da política brasileira ocorreu quando a esposa de um candidato tentou atacar adversários em um debate e, por engano, disse que iria “defender a corrupção”, não duvido de mais nada nesse país do faz de conta e da chacota acima de tudo e de todos. Por exemplo, um ex-presidente da República que nada fez pela Pátria continua se achando o melhor do mundo. O pior é que ele tem milhões de seguidores que pensam a mesma coisa. Triste, mas é a nossa realidade política. Mesmo incluído na lista dos menos desinteligentes, já pensei em votar naqueles que, profissionalmente, usam a política do Brasil como piada pronta.
Candidaturas fictícias criadas por humoristas regionais, o Deputado Rola, Ana Bafo de Rola e Cícero Rôla são a prova de que, politicamente, o Brasil, como celeiro de memes negativos, é realmente uma comédia. Uma pena que a Justiça Eleitoral proíbe candidatos com nomes considerados libidinosos ou que atentem contra o pudor. Fosse permitido, seria uma profusão de rolas nos eleitores brasileiros. Rola pra lá, rola prá cá, rola para todo o mundo, a exceção é para a servidora pública do Distrito Federal Fátima Rôla, candidata a deputada distrital pelo PT. Pelo sim, pelo não, prefiro botar minha calça de veludo e não deixar nada de fora. Afinal, o passarinho que come pedra sabe que não deve confiar no blábláblá roletrando do papagaio. Como diz o velho ditado, assim com a rola voa, jacaré no seco anda.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

