Geraldo não me chamou a atenção na primeira vez que o vi. Digo, talvez com uma nesga de remorso, que o achei feio. Melhor, não feio, mas desagradável. E não foi pelo dito, mas pelo olhar que julguei atravessado quando fomos apresentados no aniversário de um amigo em comum.
Mal saí da festa, acompanhada por duas amigas próximas, fui enfática quando Lúcia e Rosa, já na calçada, começaram a tecer comentários elogiosos sobre aquele sujeito.
— Vocês devem estar brincando.
— Como assim, Fabíola?
— Aquele Geraldo é um horror, Lúcia.
— Ah, me desculpe, mas ele é um tipão. Não é, Rosa?
— Com certeza. Pena que está comprometido com a Márcia.
— Com a Márcia?
— Ué, Fabíola, ficou interessada agora?
— Curiosidade, Lúcia, mera curiosidade.
— Sei…
Márcia Alves de Albuquerque. Uma metida desde os tempos de escola. Ela se achava a rainha da cocada preta. A safada me roubou o Lucas, meu primeiro namorado. Depois de alguns meses remoendo ódio por aqueles dois, tudo se evaporou em uma manhã de quinta ou sábado. Sobrou o rancor e nada mais.
Até hoje não sei o que me fez virar a chave em relação ao Geraldo. Quer dizer, sempre soube. Lindo, lindo, ele nunca foi, mas era o meu tipo, ainda mais depois que descobri que era o namorado daquela… Ah, da Márcia.
Um olhar, talvez curioso, foi o primeiro sinal de que Geraldo estaria interessado em algo fora de qualquer coisa que ele tinha com a Márcia. Homens… Deixei os pudores guardados no fundo da gaveta de calcinhas beges e parti para o ataque. Não como guepardo naquela correria desvairada, mas como onça-pintada à espreita para dar o bote.
Por um desses acasos tão corriqueiros em Brasília, encontrei o Geraldo no mercado aqui perto. Não necessariamente por acaso, já que ele mora no prédio em frente ao meu. Também notei que ele tem o hábito de fazer compras aos sábados, sempre por volta das três da tarde. E lá fui eu me fazer ser notada pela presa.
Assim que entrei no mercado, fingi interesse em alguns produtos até que a minha visão lateral detectou o meu alvo. Lá estava o Geraldo na seção de café. Um apreciador da bebida nacional? E eu que o imaginava enchendo a cara para aplacar o desgosto de se relacionar com a Márcia.
Aproximei-me como se procurasse uma marca específica. Quando estava a poucos centímetros do Geraldo, dei aquela sacudidela nos cabelos, os meus fios negros lamberam o seu ombro. Será que ele sentiu o frescor da minha pele? Não sei, nunca lhe fiz tal pergunta.
Fixei meus olhos em um pacote e o tomei em minhas mãos.
— Bela escolha.
Certa de que ele se lembraria de mim, aguardei por míseros segundos. Nada. Nem sequer um olhar de que já havíamos sido apresentados. E não seria eu a entregar a isca de mão beijada.
— O quê?
— Adoro esse café.
— Ah… É o que sempre levo.
— Sou o Geraldo. E você?
Ele estendeu a mão e esse foi o nosso segundo cumprimento no espaço de dois meses. Sorri simpatia, o que pareceu aguçar o desejo do homem. Já estava no papo, a questão, a partir daquele momento, era fazer com que aquilo não se tornasse apenas um caso.
— Fabíola.
Olhei para ele, inclinei levemente o rosto para o lado e sorri. Como foi bom todo aquele sofrimento usando aparelho nos dentes durante a adolescência. Obrigada, mamãe. Obrigada, Dr. Fabrício. Em seguida, eu me despedi com um breve aceno, fui em direção ao caixa e descobri que café gourmet é caríssimo.
Passei o resto do dia aprendendo sobre café, quais os tipos, como preparar sem deixar aquele gosto de queimado. Ih, quando fui me deitar, já me sentia a maior especialista no assunto. E o meu paladar se tornou mais exigente, tanto é que, já na semana seguinte, não suportava o café do meu trabalho.
— Fabíola, tu é mesmo uma fresca!
— Desculpe aí, Soraia, não é todo mundo que nasce com bom gosto.
Soraia, a minha chefe, me olhou de cima abaixo. Por que fui falar aquilo? Ah, por que se lamentar depois que o leite foi derramado? Por sorte, ela sorriu. Na certa, melhor atriz do que eu. Ih, muito melhor!
Para apaziguar qualquer possível desavença, no dia seguinte, levei um pacote do meu precioso café gourmet para a Soraia.
— Não é que você estava mesmo certa, Fabíola?
— Não disse?
— Pois é, Fabíola, disse mesmo. Não é à toa que você é a minha cretina favorita.
Cretina favorita? Foi aquilo mesmo que ela disse? Foi aquilo mesmo que chegou sem qualquer pudor aos meus ouvidos? Sorri e as pazes pareceram seladas.
Emprego salvo, voltei a me concentrar no meu objetivo: roubar o Geraldo da Márcia. E o próximo passo se deu no sábado seguinte quando, por acaso provocado, esbarrei novamente com o meu alvo no corredor do café gourmet. Entre sorrisos, trocamos dicas sobre o preparo dessa bebida dos deuses africanos.
Durante a semana, tentava ao máximo manter a mente focada no serviço. Como é difícil deixar de pensar em algo que desejamos para não perder o nosso ganha-pão. Seja como for, resisti até o quinto encontro fortuitamente calculado no mesmo mercado ao sabor de café gourmet.
— Fabíola, há tempos quero te fazer um convite.
— Convite?
— É.
— Que convite é esse?
— Quero preparar uma xícara de café.
— Hum…
Antes que você imagine que sou do tipo fácil… Bem, a verdade é que o Geraldo me preparou não apenas uma xícara, mas um bule inteiro de café gourmet antes de nos entregarmos aos prazeres da carne durante meses. E aconteceu de uma maneira inesperada, pelo menos para mim.
— Fabíola, estou apaixonado.
— Mas e a sua noiva?
— Eu quero deixá-la. Eu te amo de verdade.
— Não. Não faça isso.
— Mas…
Como foi bom colocar a ponta do meu indicador nos lábios do Geraldo. Já vi isso em alguns filmes e sempre quis fazer o mesmo. Provoca um sentimento de poder. E não quero perder isso. Amo roubar o gosto gourmet daquela boca. E haja café para sustentar tanta disposição.
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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