Jogo de cena no Supremo aguarda data para replay

Redação
Redação
4 minutos de leitura
Arimathéia Martins - Foto Joédson Alves

Entre meus malvados favoritos, posso garantir que nenhum deles se “esconde” no Supremo Tribunal Federal, cuja atuação lembra, bem de perto, aquelas partidas de futebol que ninguém quer ganhar. É o famoso jogo de compadres. O zero a zero, no máximo um a um, ajuda na classificação das duas equipes. Portanto, tem botinada, rabo de arraia, direto no queixo, puxão de cabelo, cotovelada e até chute nas partes pudendas.

Nessas disputas sob encomenda, só não vale dançar homem, mulher com mulher e nem xingar a mãe. O resto vale. O que não pode haver é discordância em relação ao que foi acertado previamente. E pouco importa que tenha tido avião, contratos milionários, festinhas privê, damas da noite, charutos cubanos ou dominicanos e whisky importado. Importante é que, em nome da liturgia do cargo e, principalmente, do espírito de corpo, todos sejam salvos.

A menos que haja um cataclisma, certamente ficará o dito pelo não dito, desde que o dito seja apenas um detalhe. Não se trata de antecipar resultado de um julgamento que não houve. A dúvida é saber se haverá. Na terça-feira considerada a mais cruel para a história do STF, os juízes entraram em campo, colocaram a bola no centro do gramado, mas, por razões que a própria razão desconhece, o juiz de linha precisou interromper a peleja tão logo percebeu que o placar poderia ser contrário ao imaginado pelas comissões técnicas.

Para quem se perdeu como o juiz de linha da Corte Suprema, vale lembrar que a sessão transformada em espetáculo tinha por objetivo investigar um ou dois de seus membros. Não se tocou no assunto durante as cerca de nove horas de bate-boca inconstitucionalissimamente inconstitucional, desproposital, inquietante, antiético e sem qualquer compromisso com a verdade. Fora a esculhambação geral extracampo, internamente o jogo foi de cena e ainda sem data para replay.

Mesmo de fora, o povo, obreiro, honesto e também conhecido por contribuinte, ficou a ver navios naquele mar de rebuscadas e nada recatadas marolas. Ainda não sabemos quando ocorrerá o segundo tempo da partida interrompida antes do início da prorrogação. Na verdade, ninguém sabe sequer se haverá o segundo tempo. Caso haja, será que vamos repetir o circo? Será que realmente vamos ter marmelada? Tudo pode acontecer, inclusive o suspeito insistir em decidir em causa própria e o acusador fazer questão de continuar votando.

A se manter o ritmo do julgamento que não houve, como cidadão e, sobretudo, como crítico da catimba formalizada, serei o primeiro a sugerir mudanças em uma antiga norma na Corte, que é afixar o retrato de todos os seus ex-presidentes em uma parede do Salão Branco do Tribunal. A ideia é criar um grande oratório para se guardar e proteger as imagens sacras dos atuais usuários da fragilizada toga. Pensem nisso com rapidez, de modo a evitar que a sociedade passe a confundir o STF com o lupanário chamado Congresso Nacional.

Compartilhar
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *