Entre meus malvados favoritos, posso garantir que nenhum deles se “esconde” no Supremo Tribunal Federal, cuja atuação lembra, bem de perto, aquelas partidas de futebol que ninguém quer ganhar. É o famoso jogo de compadres. O zero a zero, no máximo um a um, ajuda na classificação das duas equipes. Portanto, tem botinada, rabo de arraia, direto no queixo, puxão de cabelo, cotovelada e até chute nas partes pudendas.
Nessas disputas sob encomenda, só não vale dançar homem, mulher com mulher e nem xingar a mãe. O resto vale. O que não pode haver é discordância em relação ao que foi acertado previamente. E pouco importa que tenha tido avião, contratos milionários, festinhas privê, damas da noite, charutos cubanos ou dominicanos e whisky importado. Importante é que, em nome da liturgia do cargo e, principalmente, do espírito de corpo, todos sejam salvos.
A menos que haja um cataclisma, certamente ficará o dito pelo não dito, desde que o dito seja apenas um detalhe. Não se trata de antecipar resultado de um julgamento que não houve. A dúvida é saber se haverá. Na terça-feira considerada a mais cruel para a história do STF, os juízes entraram em campo, colocaram a bola no centro do gramado, mas, por razões que a própria razão desconhece, o juiz de linha precisou interromper a peleja tão logo percebeu que o placar poderia ser contrário ao imaginado pelas comissões técnicas.
Para quem se perdeu como o juiz de linha da Corte Suprema, vale lembrar que a sessão transformada em espetáculo tinha por objetivo investigar um ou dois de seus membros. Não se tocou no assunto durante as cerca de nove horas de bate-boca inconstitucionalissimamente inconstitucional, desproposital, inquietante, antiético e sem qualquer compromisso com a verdade. Fora a esculhambação geral extracampo, internamente o jogo foi de cena e ainda sem data para replay.
Mesmo de fora, o povo, obreiro, honesto e também conhecido por contribuinte, ficou a ver navios naquele mar de rebuscadas e nada recatadas marolas. Ainda não sabemos quando ocorrerá o segundo tempo da partida interrompida antes do início da prorrogação. Na verdade, ninguém sabe sequer se haverá o segundo tempo. Caso haja, será que vamos repetir o circo? Será que realmente vamos ter marmelada? Tudo pode acontecer, inclusive o suspeito insistir em decidir em causa própria e o acusador fazer questão de continuar votando.
A se manter o ritmo do julgamento que não houve, como cidadão e, sobretudo, como crítico da catimba formalizada, serei o primeiro a sugerir mudanças em uma antiga norma na Corte, que é afixar o retrato de todos os seus ex-presidentes em uma parede do Salão Branco do Tribunal. A ideia é criar um grande oratório para se guardar e proteger as imagens sacras dos atuais usuários da fragilizada toga. Pensem nisso com rapidez, de modo a evitar que a sociedade passe a confundir o STF com o lupanário chamado Congresso Nacional.

