Lilian, há uma Maninha à sua espera em Brasília

Redação
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José Seabra - Foto Acervo Pessoal

Querida amiga Lilian Duarte,

Escrevo-lhe de Brasília com a liberdade que os cabelos prateados costumam conceder aos homens. Não sei se é sabedoria ou apenas o privilégio de já ter vivido o bastante para compreender que algumas mulheres não envelhecem; simplesmente amadurecem. E você, pelo que me contam e como a imagino, está justamente nessa perigosa estação da vida. Perigo, sublinho, que correm os cavalheiros.

Há mulheres que o tempo recolhe e outras que são lapidadas por Chronos, como existem aquelas, mais raras, que chegam à maturidade como certas frutas mineiras chegam ao ponto, guardando perfume, cor e doçura, esperando apenas o instante certo de serem colhidas.

Desconfio de que você pertença a essa última espécie. E me surpreendo imaginando seu caminhar pelas ruas de sua cidade no interior de Minas, atravessando salões, cumprimentando conhecidos, distribuindo sorrisos sem perceber, ou fingindo não perceber, que alguns pescoços masculinos ainda se voltam discretamente à sua passagem.

Mulheres como você sabem quando provocam suspiros; apenas têm a delicadeza de não denunciar quem suspirou.

Mas não lhe escrevo para falar somente sobre você. A verdade é que há uma conspiração acontecendo aqui no Planalto Central. Seu filho, Breno, é um dos culpados.

Ele decidiu me chamar de Vô. Não houve assembleia, consulta pública nem direito de defesa. Olhou para meus cabelos prateados e decretou a sentença. Desde então, carrego esse parentesco improvisado com certo orgulho e alguma desconfiança. Porque, quando um homem chama outro de Vô, é bom verificar se não está preparando terreno para apresentar uma noiva.

Eis que apareceu Bianca. Ou melhor, Maninha. É assim que ela foi batizada pela confraria do Clube do Dominó da 205, em Águas Claras. Família que não nasceu do sangue, mas daquelas afinidades que a vida, quando está de bom humor, coloca em volta de uma mesa.

Maninha tem essa qualidade difícil de explicar. Ela chega sem fazer barulho e, quando percebemos, já faz parte da paisagem. É dessas beldades que não precisam pedir licença para entrar no afeto dos outros. Por isso resolvi antecipar as formalidades e escrever à futura sogra.

Lilian, venha conhecer sua candidata a nora; examine a moça com aqueles olhos de mãe que enxergam até pensamento escondido. Faça perguntas, observe gestos, procure defeitos, porque mãe de filho homem possui licença universal para desconfiar da mulher que pretende ocupar um pedaço do coração que durante tantos anos julgou território exclusivamente seu.

Só lhe faço uma advertência, amiga querida. É que talvez você goste dela. E aí estaremos todos perdidos.

Mas, Lilian, há outra razão para sua viagem. Quero lhe apresentar Brasília à noite. Não a Brasília dos ministérios, dos palácios, dos automóveis oficiais e das gravatas apertadas, porque essa pode esperar.

Você precisa contemplar nossa capital de uma varanda no Colorado, quando a noite desce devagar sobre o Cerrado e o céu parece exageradamente grande. De lá, quero vê-la olhando as luzes distantes do Lago Norte, do Plano Piloto e, mais adiante, do Lago Sul. Pontinhos luminosos espalhados pela escuridão como se alguém tivesse derramado sobre Brasília um punhado de estrelas.

Talvez haja Lua – e torço para que ela apareça, porque certas mulheres ficam perigosamente bonitas sob o luar. E uma mineira quase madura, reitero, ainda capaz de arrancar suspiros de cavalheiros, talvez descubra, sob nosso céu, que Brasília não é feita apenas de concreto.

Por aqui há silêncios, brisas, noites que convidam à confidência e varandas onde uma taça, uma conversa e o horizonte conseguem fazer o relógio perder completamente a importância. Releia o período, Lilian. Uma taça para meu vinho, porque para você haverá um copo de cristal para degustar os mais puros sucos de frutas regionais.

Você virá, naturalmente, para conhecer Bianca. É essa a versão oficial. Breno acreditará nela, Maninha também, e nós permitiremos que assim seja, embora supostamente. Mas, quando todos estiverem distraídos, daremos um passeio e, chegando a nosso destino, você poderá simplesmente encostar-se à varanda, deixar o vento do Cerrado brincar com seus cabelos e olhar Brasília acesa aos seus pés.

Nesse instante, talvez compreenda uma coisa que aprendi depois que meus cabelos começaram a pratear. É que a juventude é apenas uma idade; a sedução, não. Ela mora no jeito de olhar, na maneira de sorrir, na elegância de quem já atravessou tempestades e ainda assim conserva perfume de primavera.

Portanto, Lilian, venha. Sua futura nora estará esperando, o Breno estará esperando, o Vô estará esperando, e Brasília também.

Quanto à Lua, não posso garantir. Mas, conhecendo um pouco dos caprichos do Universo, tenho a impressão de que ela dará um jeito de comparecer. Afinal, até a Lua deve sentir certa curiosidade em conhecer a mãe do meu neto postiço.

Acho que me excedi no texto. Paro por aqui, com carinho, alguma malícia e todos os meus cabelos prateados,

‘Vô’ do Breno

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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