Ana acorda antes do sol. O despertador nem precisa mais tocar: o corpo já aprendeu o horário. Levanta sem fazer barulho, passa o café, prepara a lancheira do filho e ainda encontra tempo de sentar na beira da cama dele por dois minutos, só para olhar o rosto adormecido. Naqueles dois minutos ela respira. Depois a pressa volta.
— Levanta, meu amor. Senão a gente atrasa.
Pedro tem sete anos e ainda se esfrega nos olhos como quem não quer deixar o sonho. Ana escova o cabelo dele, amarra o cadarço, revisa a mochila. No caminho até a escola, ele pergunta:
— Mãe, hoje você vai me buscar?
— Vou sim. Depois do trabalho.
Ela sempre vai. Mesmo quando o chefe pede para ficar até mais tarde. Mesmo quando as pernas doem e a cabeça lateja. Porque não tem outra pessoa para ir.
No trabalho, Ana é a mulher eficiente, a que resolve, a que não falta. Ninguém ali sabe que, no intervalo do almoço, ela liga para a escola para saber se o filho comeu, ou que à noite vai ter de consertar a torneira que está pingando desde segunda-feira. O vizinho já ofereceu ajuda uma vez. Ela agradeceu e disse que dava conta. Dá conta mesmo. Sempre deu.
À noite, depois do jantar arroz, feijão e ovo, de novo , Pedro puxa o caderno de matemática. Ana senta ao lado dele na mesa pequena da cozinha. Enquanto explica a tabuada, pensa na conta de luz que vence amanhã e no tênis do filho que já está apertado. Quando a lição termina, ele pede:
— Mãe, joga bola comigo?
Ela olha o relógio. São quase nove. O cansaço pesa nos ombros como um casaco molhado. Ainda assim, ela sorri.
— Cinco minutos. Só cinco.
No corredor estreito do apartamento, os dois chutam a bolinha de plástico. Pedro ri alto. Ana ri também, mesmo com o joelho doendo daquela vez que caiu correndo atrás do ônibus. Por alguns minutos ela é só mãe brincando. Depois, quando o menino vai tomar banho, ela vira pai outra vez: troca a lâmpada do banheiro, aperta o parafuso da cadeira que balança, confere se a porta está trancada.
Mais tarde, com Pedro já dormindo, Ana senta no sofá e finalmente deixa os ombros caírem. O silêncio da casa é pesado. Não tem alguém para dividir o “como foi seu dia”. Não tem mão para massagear as costas. Não tem voz adulta para dizer “pode descansar, eu cuido”. Ela é a voz, a mão, o descanso e a responsabilidade inteira.
Às vezes, no meio da madrugada, o menino chama:
— Mãe… tive um pesadelo.
Ana se levanta na hora. Deita na cama estreita, abraça o filho e fica ali até ele voltar a dormir. Enquanto acaricia o cabelo dele, pensa em todas as noites em que precisou ser forte demais. Em todas as decisões que tomou sozinha. Em todas as vezes em que engoliu o choro para não assustar a criança.
Mas também pensa no sorriso do Pedro quando ela chega da escola. No “te amo, mãe” dito sem nenhum esforço. Na certeza de que, mesmo cansada, mesmo incompleta, ela é o chão firme onde o filho pisa.
Quando o menino dorme de novo, Ana volta para a cama. Antes de fechar os olhos, murmura para o escuro, como quem faz uma promessa:
— A gente dá conta. Sempre deu.
E dorme. Porque amanhã o sol vai nascer de novo, e ela vai precisar ser, mais uma vez, mãe e pai ao mesmo tempo.

