O bêbado e o passarinho

Eduardo Martínez
4 minutos de leitura
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Gilberto Pìnto da Motta, meu amigo de Facebook e companheiro no Café Literário – Notibras, escreveu um minitexto intitulado Passarinho acrobata. Nele, conta como a ave “desfila no fio tenso da vida e depois, pintado de palhacinho, desce ao picadeiro e inventa mil traquinagens”.

O textinho era acompanhado por uma foto, de autoria de Tasso Scherer, que mostra um pássaro empoleirado em um fio. Foi o que inicialmente me chamou atenção.

Comentei que era “A ilustração perfeita para a composição Bird on the wire (Pássaro sobre o fio), de Leonard Cohen”, cujos primeiros versos são: Like a bird on the wire, like a drunk in a midnight choir, I have tried in my way to be free (Como um pássaro sobre o fio, como um bêbado num coro de meia-noite, tentei, de meu próprio modo, ser livre.

Liberdade é o tema presente no poema de Cohen, no texto de Gilberto e neste meu. Liberdade para “inventar mil traquinagens”; para cantar, gloriosamente bêbado, em meio a um coro bem-comportado de devotos; para unir essas imagens às criadas pelo poeta Ferreira Gullar: Como dois e dois são quatro/ Sei que a vida vale a pena/ Embora o pão seja caro/ E a liberdade, pequena.

De fato, a liberdade aumenta e diminui de tamanho conforme a mobilização popular em torno dela. Mínima durante a ditadura, quando o poema Dois e dois: quatro foi escrito, cresceu com as lutas pela anistia e a redemocratização, floresceu com a Constituição de 1988 e sobreviveu à prova da eleição presidencial de 2022, quando o presidente golpista foi derrotado por aquele que uma conspiração palaciana tentou assassinar. Liberdade que, mais uma vez, é posta à prova na eleição presidencial de 2026, em que se defrontam, como principais contendores, o representante da familícia Bozo, composta por saudosistas declarados do regime militar, e o presidente Lula.

A verdade é que exercer a liberdade e, desse modo, ampliá-la, é muito perigoso. Muita gente morreu nos anos de chumbo, vítima de tiros e torturas – ainda que uma besta-fera do calibre do messias da gadaiada tenha afirmado que “a ditadura matou pouco, seria necessária uma guerra civil que matasse uns 30 mil, entre eles o presidente FHC”.

Pensemos agora no passarinho e no bêbado, ícones da liberdade na composição de Cohen. O que provavelmente aconteceria com o bêbado, ao desafinar ou cantar, aos berros, músicas diferentes das entoadas pelos devotos? No mínimo, seria expulso a pontapés. E a avezinha, o que lhe aconteceria se pousasse em um fio desencapado? Em princípio, um pássaro faz isso sem levar choque porque não está encostado em nenhum outro objeto, mas caso se descuide e toque simultaneamente, por exemplo, em um galho de árvore, a descarga fulminante virá.

Vale a pena correr esses riscos? Perguntem ao bêbado se não seria melhor curar o porre e, de ressaca, ingressar no coro noturno, para cantar melodias bem-comportadas. Perguntem ao passarinho se não seria melhor trocar os riscos do pouso em fios desencapados pela segurança de uma gaiola, de contar com rações balanceadas e por aí vai.

Acho que as respostas serão esclarecedoras.

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2 Comentários
  • Bom dia, Cadu.
    Os teus textos são fabulosos e inspiradores. O mesmo me ocorre com as fotos do Tasso Scherer, dono do melhor Sebo Cultura, livreiro e fotógrafo incrível. Daí a minha postagem do nosso pequeno/grande herói de penas e notas musicais na alma. Além, é claro, a doce e potente liberdade/encarcerada do bêbado em transe etílico e do palhacinho das traquinagens pelos picadeiros da vida.
    Grande texto, meu amigo e colega de traquinagens literárias.
    Depois de saborear esse te banquete gentilmente oferecido aqui no nosso Café Literário, reafirmo e amplio a minha intuição de que “Vale, sim, a pena correr esses e muitos outros riscos”.
    Forte abraço e gratíssimo.

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