Eu nunca me vi como uma pessoa muito comunicativa. Na verdade, sou mais introspectiva, observadora. Daquelas que chegam devagar, olham, sentem o ambiente e só depois se deixam ficar.
Um dia, pedi a Deus um presente que mudasse positivamente a minha vida.
E ganhei.
Sem esperar, surgiu um contrato como professora do Estado. Eu nem lembrava que havia feito a inscrição.
Fui lá, aceitei e, logo de cara, enquanto aguardava na fila para escolher a escola, encontrei uma colega com quem já havia trabalhado em outra escola.
— O que você está fazendo aqui?
Eu também não sabia muito bem.
Escolhi a escola onde ela era diretora adjunta e fui.
Foi ali que conheci muita gente bacana. Mas, entre tantas pessoas, uma pequena panelinha, daquelas que a vida forma sem pedir licença, acabou completando meu coração.
Eu ainda era nova na escola. Naquele momento, as relações eram mais superficiais, os vínculos ainda estavam começando a se desenhar.
Até que surgiu um convite para levar os alunos à Flyp Paraty.
E foi aí que a história começou a mudar.
No dia marcado, seguimos cedinho. Ônibus cheio, alunos adultos empolgados e a professora também!
O grupão foi dividido. E havia um detalhe: eu, assim como os alunos, nunca tinha ido a Paraty.
Meu grupo decidiu fazer um tour, já que ninguém conhecia a cidade. Seguimos pelas ruas de paralelepípedos, ainda secas, descobrindo cada cantinho como quem abre um presente.
Aproveitamos um passeio de barco por alguns dos pontos turísticos — e choramos horrores por um desconto! 😂
Depois, rodamos muito até encontrar um lugar onde fosse possível almoçar bem e barato em uma cidade tão cara.
Ali nasceu uma espécie de aliança “cultural”.
Meus alunos ficaram maravilhados com aquele dia top!
Quando voltamos ao ônibus e os outros grupos perceberam que tinham ficado limitados a uma “feira”, onde poderiam comprar as coisas pela internet, começaram as reclamações.
E foi assim, entre passeios, reclamações, risadas e descobertas, que algo começou a se formar.
Dali para frente, as sextas-feiras ganharam caldos pós-trabalho. As quartas-feiras passaram a ter idas a lonas culturais. Vieram projetos muito bem realizados pelos alunos, conversas, encontros e aquela sensação boa de que trabalhar também podia significar construir memórias.
Quem trabalha no turno da noite conhece bem a dificuldade de manter uma frequência regular dos alunos.
Na realidade, quem vai é quem realmente precisa concluir os estudos, pegar o diploma.
Sair direto do trabalho para a escola é cansativo. É desgastante. Trabalhar o dia inteiro e ainda seguir para a escola é, muitas vezes, um verdadeiro sacrifício.
E, nesse contexto, o quinteto acabou se tornando alvo de alguns olhares incomodados e de muitas fofoquinhas.
Faz parte.
Com o tempo, as situações deixam de ser tão intensas. Algumas coisas passam, outras permanecem.
Nós nos separamos por conta de outros trabalhos, outras escolas, outros caminhos.
Mas o carinho ficou.
E talvez seja justamente isso que tenha restado de mais bonito nessa história: perceber que algumas pessoas entram na nossa vida sem aviso, sem planejamento e, quando percebemos, já deixaram marcas.
Nem sempre permanecem ao nosso lado.
Mas permanecem em nós.
Porque algumas pessoas não chegam para ficar para sempre. Chegam para transformar.
Transformar encontros em memórias.
Trabalho em experiências.
Dificuldades em histórias.
E pessoas em afetos que continuam existindo mesmo quando os caminhos se separam.
Afinal, aquele presente que pedi a Deus não veio apenas em forma de um contrato.
Veio em forma de pessoas.
De encontros.
De risadas.
De experiências.
De histórias que eu nem sabia que estava começando a viver.
E talvez esse seja o verdadeiro significado de um presente: aquilo que chega de repente, muda o caminho e, anos depois, quando a gente olha
para trás, percebe que recebeu muito mais do que havia pedido.
Recebi uma história.
E algumas pessoas que, de alguma forma, passaram a fazer parte dela para sempre.

