José Roberto Arruda chegou outra vez à porteira eleitoral, levando no embornal o PSD, algumas pesquisas debaixo do braço, discursos, esperança e a velha disposição de quem acredita que, depois de tantas voltas, sempre haverá uma fresta aberta no curral da política. Desta vez, porém, não havia.
Nesta quinta-feira, 24, o Tribunal Superior Eleitoral colocou mais uma tranca na porteira. Por 5 votos a 2, manteve o indeferimento do registro da candidatura de Arruda ao Governo do Distrito Federal. Ele pretendia voltar ao Palácio do Buriti, mas a Justiça Eleitoral entendeu que a Lei da Ficha Limpa continua atravessada no caminho.
Traduzindo do juridiquês para o português das antigas estações ferroviárias, Arruda pode pegar o chapéu porque o trem eleitoral partiu sem ele.
O TSE manteve o entendimento do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal, que havia considerado o ex-governador inelegível em razão de seis condenações por improbidade administrativa relacionadas à Operação Caixa de Pandora. O processo julgado pelo TSE foi o Recurso Ordinário Eleitoral 0600957-40.2026.6.07.0000.
Esta não é a primeira vez que Arruda vê a urna de longe. Sua última disputa eleitoral efetiva ocorreu em 2006. Desde então, tentou retornar, registrou candidatura e esbarrou sucessivamente na Justiça. Agora, em 2026, montou novamente o cavalo, ajeitou a sela, colocou o pé no estribo e acreditou que finalmente atravessaria o cerrado rumo ao Buriti.
Mas o TSE apareceu no meio da estrada e mostrou a placa com a frase “Por aqui, não.” A imagem pode parecer cruel, mas a política brasiliense há muito abandonou os salões de baile para frequentar os rodeios. Arruda entrou nesta campanha como personagem relevante, apareceu com dois dígitos nas pesquisas e tentou transformar a batalha judicial numa espécie de segundo palanque.
Enquanto seus adversários disputavam votos, ele precisava disputar também o direito de disputá-los, numa campanha com uma urna eletrônica e outra togada. Na primeira, quem decide é o eleitor. Na segunda, sete ministros. E foi justamente nessa segunda urna que apareceu o número fatal: 5 a 2.
Não adiantou tirar do armário o discurso da volta por cima. Não bastaram fotografia, carreata, santinho, abraço, pesquisa ou lembrança dos tempos em que comandava o Distrito Federal. Para chegar à urna, antes era necessário atravessar a ponte da elegibilidade, mas ela ruiu antes.
A ironia é que Arruda passou boa parte da campanha tentando convencer o eleitor de que seu passado político já estava suficientemente distante. A Justiça Eleitoral, porém, trabalha com calendário diferente. No tribunal, passado não é necessariamente aquilo que ficou para trás. Às vezes, continua sentado à mesa, com processo, número e acórdão.
E foi a velha Caixa de Pandora, aberta em 2009, que voltou a projetar sua sombra sobre 2026. As condenações por improbidade associadas ao caso foram justamente o fundamento apontado pelo TRE-DF para reconhecer a inelegibilidade posteriormente mantida pelo TSE.
Arruda talvez imaginasse ter encontrado a saída do labirinto, até chegou perto da porta, mas quando estendeu a mão para a maçaneta, encontrou sete ministros do outro lado. Cinco disseram não e dois disseram sim. Na matemática eleitoral, porém, não existe segundo turno dentro de tribunal.
E assim termina, pelo menos neste capítulo judicial, mais uma tentativa de José Roberto Arruda retornar às urnas do Distrito Federal. O homem que queria novamente as chaves do Palácio do Buriti recebeu da Justiça Eleitoral o chapéu para não esquentar a cabeça no caminho de casa. Agora resta colocá-lo na cabeça, olhar uma última vez para a estrada e descobrir que, desta vez, a porteira das urnas ficou fechada do outro lado.
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Carolina Paiva é Editora de Brasília

