Pesquisas da Quaest e Genial estão produzindo a fumaça do carbono oculto

Redação
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João Zisman - Foto Editoria de Imagens/IA

A nova fase da Operação Carbono Oculto colocou mais fuligem sobre a Faria Lima e, desta vez, aproximou a fumaça de uma marca que há anos circula pelo noticiário político brasileiro quase como sobrenome de instituto de pesquisa. Genial e Quaest apareceram tantas vezes juntas em levantamentos eleitorais que a associação se tornou natural aos olhos do público, o que torna difícil imaginar que a confusão envolvendo uma das partes não produza algum desconforto sobre a outra.

A Quaest não é investigada e não há, até aqui, qualquer elemento público que autorize falar em manipulação de pesquisas, alteração de percentuais ou qualquer outra esperteza estatística. Seria imprudente transformar suspeita em fato, mas seria igualmente ingênuo tratar a relação entre um banco, um instituto de pesquisas políticas e o mercado financeiro como se tudo isso fosse apenas uma coincidência gráfica impressa no rodapé das tabelas.

Durante anos, a dobradinha Genial/Quaest funcionou sem causar maiores sobressaltos, até porque a parceria sempre foi pública. O banco patrocinou levantamentos, o instituto ganhou musculatura, presença diária no debate político e crescente autoridade para interpretar o humor do eleitor, enquanto pesquisas eleitorais, como se sabe, não ficam confinadas às redações e aos comitês de campanha: ajudam a formar expectativas, movimentam narrativas, interferem na percepção de força dos candidatos e são avidamente consumidas por quem tenta antecipar o comportamento da economia, da Bolsa e do dólar.

É justamente aí que a Carbono Oculto deixa de ser problema apenas do Banco Genial e passa a lançar uma pergunta incômoda sobre a paisagem ao redor. Quando quem financia sistematicamente pesquisas políticas é uma instituição financeira que passa a orbitar uma investigação dessa dimensão, não é necessário inventar conspiração para perguntar onde termina o interesse de quem paga e começa a independência de quem mede.

Não se trata de imaginar executivos telefonando para pesquisadores e negociando décimos de candidato como se estivessem acertando preço de ativo numa mesa de operações, porque essa caricatura seria fácil demais de desmentir e cômoda demais para quem prefere não discutir o essencial. A questão é outra: quais são as barreiras concretas que separam contratante, instituto, metodologia, calendário e divulgação, especialmente quando a informação produzida possui valor político, econômico e, em alguma medida, financeiro?

A Quaest construiu reputação considerável e Felipe Nunes tornou-se personagem recorrente da interpretação eleitoral brasileira, razão suficiente para que a resposta a essas perguntas não possa ser simplesmente a ficha técnica da pesquisa. Seria interessante saber qual o peso da Genial no faturamento do instituto, quem participa da definição dos temas pesquisados, como são estabelecidos os calendários de divulgação, quais mecanismos impedem interferências do contratante e se existe alguma forma independente de auditoria capaz de demonstrar que a relação comercial termina antes de começar a cozinha metodológica.

Nada disso prova irregularidade, mas reputação não vive apenas da inexistência de prova contra ela; vive também da capacidade de dissipar dúvidas quando o ambiente ao redor começa a ficar enfumaçado. E é difícil imaginar ambiente mais propício a perguntas do que aquele em que dinheiro, política, pesquisas eleitorais e mercado financeiro aparecem na mesma fotografia justamente quando uma investigação começa a remexer as estruturas da Faria Lima.

Talvez não exista absolutamente nada além de uma relação comercial legítima entre Genial e Quaest, e é perfeitamente possível que a Carbono Oculto jamais produza qualquer elemento relacionado ao instituto. Ainda assim, a operação já conseguiu transformar aquilo que durante anos parecia apenas uma parceria de marcas em assunto digno de escrutínio, porque confiança, quando se trata de pesquisa eleitoral, não deveria depender apenas da margem de erro apresentada ao pé da página, mas também de uma margem de independência suficientemente clara para que ninguém precise confiar apenas na palavra de quem mede.

A ironia é que, numa operação batizada de Carbono Oculto, o que menos pode permanecer oculto agora é a natureza dessa relação, seus limites e as garantias de independência entre quem banca a pesquisa e quem informa ao país o que o eleitor estaria pensando.

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