Os livros também leem seus leitores

Eduardo Martínez
3 minutos de leitura
Texto: Durval Pimenta de Castro Filho - Foto: Francisco Filippino

Não só de palavras é feito um livro, mas também de sonhos, pensamentos, devaneios, dores e amores, e talvez de esperança, despejados nas páginas em branco. É da inspiração do escritor que nasce a obra que ele almeja concluir, linda e extraordinária, seja em verso ou em prosa, num mergulho na ficção ou, quem sabe, na mais pura e cruel realidade, relatora aguçada do cotidiano do citadino trabalhador. Não só de palavras vive o livro, mas de alma.

Meus livros moram na estante e observam o dia iluminado ao seu redor. Lado a lado, em conversa íntima, parecem discretamente comentar a rotina deste residente. Convivo com eles em harmonia desde que me entendo por gente, desde que nasceu meu amor pelos livros. Com eles dialogo, rio, eventualmente caio em prantos, na mais inteira cumplicidade, pedindo ajuda ao conhecimento para que a vida se faça constantemente iluminada. Meus livros têm alma, e dessa convivência se alimenta o meu saber.

Há de tudo um pouco: história, filosofia, matemática, geografia, religião, linguística, direito, economia, nobiliarquia, medicina, enologia, gastronomia, psicologia, artes plásticas, artes cênicas, cinema, romance, ficção, poesia, arquitetura, arqueologia e confeitaria.

Entre os autores brasileiros, Cora Coralina, Castro Alves, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Matias Aires, Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado. Entre os estrangeiros, Franz Kafka, Friedrich Nietzsche, Jean Renoir, Jean-Paul Sartre, Sigmund Freud, Carl Jung e Milan Kundera. É uma profusão de ideias e conhecimento de inapelável qualidade, capaz de resgatar o cronista do marasmo, da alienação e da insensatez, tornando-o diligente e precavido quanto às suas escolhas e seus caminhos.

Os livros dão a quem os lê e consome a certeza de que o existir e o pensar são indissociáveis, evocando a imorredoura formulação de René Descartes: cogito, ergo sum. Cada livro revela um capítulo da vida e do saber, tornando-se ferramenta essencial do conhecimento para a eternidade. Penso, logo existo; leio, sendo assim, existo. Lego, ergo sum. Leio, já não poderei retroceder.

Não se despreza o que tem alma (anima). Portanto, não se deixa de lado o livro, porque tem alma, além de palavras: artigos, verbos, substantivos, adjetivos, advérbios, pronomes, em perfeita e vernacular harmonia, enaltecendo a língua pátria ou estrangeira.

Enfim, é o conhecimento, não importa o idioma: Wissen, knowledge. É o passaporte para a viagem da vida e da sabedoria, e para a felicidade.

Permaneço ao redor dos livros, porque têm alma, porque falam para o seu leitor, prestando-lhe singela homenagem, presenteando-o com as suas palavras, forjadas na dor ou na alegria, no desalento ou na esperança, nos sonhos, pensamentos e devaneios de seu generoso escritor.


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Durval Pimenta de Castro Filho, poeta, escritor, é professor universitário e advogado no Rio de Janeiro.

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