José Roberto Arruda já atravessou situações políticas muito mais dramáticas do que a decisão do Tribunal Superior Eleitoral que encerrou sua candidatura ao Governo do Distrito Federal. O que talvez seja novo, desta vez, é a maneira como resolveu atravessá-la.
Depois da derrota por 5 a 2 no TSE, havia ainda instrumentos jurídicos disponíveis. Arruda decidiu não utilizá-los. Reconheceu a decisão, pediu aos eleitores que não votassem mais nele e disse que seu caminho naquela eleição havia terminado. Não houve convocação para nova batalha, tampouco a tentativa de prolongar judicialmente uma candidatura que a Justiça considerou encerrada.
Há uma resignação pouco comum na trajetória de um político que passou boa parte dos últimos vinte anos tentando permanecer presente mesmo quando as portas eleitorais estavam fechadas. Arruda ficou longos períodos impedido de disputar eleições, mas não desapareceu da política do Distrito Federal. Conservou relações, interlocutores, aliados e, principalmente, uma memória política que continuou viva entre parcelas expressivas do eleitorado. Chegar a 2026 novamente competitivo na disputa pelo Buriti, depois de tantos anos de impedimentos e controvérsias judiciais, é uma demonstração objetiva dessa permanência.
Por isso, convém separar duas coisas. Uma delas parece, pelo menos neste momento, encerrada: a tentativa de voltar ao poder pelo voto. Outra é saber se Arruda conseguirá ou desejará se afastar da política. Só o tempo responderá, embora talvez nem seja necessário esperar muito.
Restam poucos dias até o primeiro turno de 4 de outubro, e Arruda deixa na pista algo entre 17% e 18% do eleitorado, segundo as duas pesquisas mais recentes. O Datafolha registrou 18% com seu nome na disputa; a Quaest, 17%. Nenhum candidato recebe automaticamente esse patrimônio. Arruda, inclusive, evitou indicar a quem seus eleitores deveriam entregar o voto.
É aí que sua saída ganha importância eleitoral. O Datafolha já havia testado o cenário sem Arruda. Celina Leão aparece com 42%, Leandro Grass com 23%, Paula Belmonte com 7% e Ricardo Cappelli com 5%, enquanto 11% declaram voto branco ou nulo e 6% ainda não sabem em quem votar. A fotografia aproxima Celina da possibilidade de resolver a disputa no primeiro turno, mas está longe de transformar isso em fato consumado.
A Quaest oferece uma fotografia mais aberta: sem Arruda, Celina aparece com 34% e Grass com 23%. As diferenças metodológicas e o volume ainda elevado de eleitores sem candidato definido recomendam cautela antes de decretar qualquer desfecho.
A pergunta dos próximos dias, portanto, não é simplesmente quem herdará os votos de Arruda. É como eles irão se mover.
Se parte expressiva desse eleitorado caminhar para Celina, ou se pulverizar entre várias candidaturas e o voto branco e nulo, aumenta a possibilidade de encerramento da eleição no primeiro turno. Se houver uma concentração relevante no principal adversário da governadora ou uma reorganização do voto oposicionista, o segundo turno continua perfeitamente possível.
E é nesse pequeno intervalo que será possível perceber também o que significa, na prática, a resignação anunciada por Arruda.
Ele pode permanecer em silêncio, permitindo que seus eleitores façam individualmente suas escolhas. Pode decidir ajudar apenas seus candidatos proporcionais e preservar alguma musculatura política do PSD. Ou pode voltar aos bastidores e participar, mesmo sem declaração formal de apoio, das conversas que inevitavelmente começam quando quase um quinto do eleitorado fica subitamente sem candidato.
Nenhuma dessas hipóteses deve ser apresentada hoje como decisão tomada, porque o fato é outro: Arruda aceitou que sua candidatura acabou. Para alguém que passou duas décadas procurando caminhos para permanecer politicamente ativo mesmo quando a Justiça lhe fechava as urnas, não é um gesto irrelevante.
Resta saber se a resignação alcançou também os bastidores. Até 4 de outubro provavelmente teremos uma primeira resposta.
* Datafolha/Folha de S.Paulo e TV Globo: 910 eleitores entrevistados entre 22 e 24 de setembro; margem de erro de 3 pontos percentuais, nível de confiança de 95%; registros DF-01888/2026 e BR-06769/2026.
* Quaest/Globo: 1.104 eleitores entrevistados entre 19 e 22 de setembro; margem de erro de 3 pontos percentuais, nível de confiança de 95%; registro DF-02596/2026.

