Política atual do Brasil vive devaneios do passado como a natureza morta

Redação
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Armando Cardoso - Foto Editoria de Imagens/IA

Houve um tempo em que os eleitores brasileiros se dividiam entre a direita de Aureliano Chaves, Antônio Carlos Magalhães, Paulo Maluf, Marco Maciel e Jarbas Passarinho, o centro de Roberto Cardoso Alves, Tancredo Neves, Franco Montoro, Paulo Brossard e José Sarney e a esquerda de Leonel Brizola, Mário Covas, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Miguel Arraes, José Dirceu e Luiz Inácio da Silva. Embora pragmáticos e até pendulares, nenhum desses jamais atentou contra a vida, a honra ou o mandato do outro.

Pelo contrário. Mesmo com alguma dissidência no campo das ideias, a maioria, regida pela batuta de Ulysses Guimarães, se tornou célebre pelo engajamento na luta pela redemocratização. Conciliadores e focados na moderação institucional, todos tinham como propósito de República a amplitude dos acordos partidários e transições pacíficas de poder. Com raríssimas exceções, os políticos de um passado nem tão distante dialogavam tanto com alas reformistas quanto com setores conservadores.

Políticos na acepção da palavra e com perfis eminentemente republicanos, os parlamentares de então fizeram história e, sem a necessidade de apelos de cunho religioso, eles formaram a base de sustentação de diversos governos. E o que sobrou para os anos 2000, além da política de compadrio, de interesses escusos, de falsos profetas, de conchavos perniciosos para o país e para o povo e de constantes ameaças aos que defendem as liberdades? Pouca coisa de útil, algo como a poeira do esterco do cavalo do bandido.

Da política de ocasião observada desde o impeachment da presidente Dilma Rousseff restam o golpismo, a troca de acusações, o envolvimento de parlamentares desorganizados com o crime organizado ou com banqueiros corruptos, o esvaziamento das instituições, a politização do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral e a corriqueira prisão de ex-deputados e de ex-presidentes da República. Propostas de governo viraram objetos em desuso. Poucos dos atuais arremedos de políticos sequer sabem o significado do termo.

Triste a realidade do país que politicamente vive do passado. No Brasil de 2026, política e políticos são como natureza morta. Atualizando uma antiga frase do ex-premiê britânico Winston Churchill, a política do Brasil dos chamados “patriotas” é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra, a pessoa só pode ser morta uma vez, mas diversas vezes na política da extrema-direita, a corrente que claramente tem ódio do governo do povo, pelo povo e para o povo.

Preferências partidárias à parte, me preocupa o Brasil de 2027. Bom ou ruim, gênio ou falsário, Luiz Inácio Lula da Silva é um dos poucos bastiões da democracia que não se cala diante da tirania. Caso ele vença a eleição deste ano, o país renovará o fôlego pelo menos até 2030. Se perder, todos brasileiros, inclusive os que se acham superiores, terão de participar do sonho eterno dos que veem a política como a condução dos negócios públicos para proveito de particulares. Será o tête-à-tête definitivo da fome com a vontade de comer. Aqueles que procuram pelo mal nas pessoas com certeza o encontrará.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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