Há momentos em que o jornalismo precisa investigar documentos, conferir números, ouvir fontes, desconfiar de versões e iluminar aquilo que alguém preferia deixar no escuro. Como há outros em que basta ao repórter sentar-se à mesa de um bar, pedir um café ou algo mais apropriado ao horário e deixar o Brasil falar.
Nessas ocasiões vê-se porque o brasileiro, quando se aproxima uma eleição, desenvolve talentos que nem a ciência consegue explicar. O eleitor vira cientista político, estatístico, constitucionalista, especialista em pesquisas e, agora, ao que parece, reformador do calendário gregoriano.
A descoberta nasceu numa dessas rodas em que ninguém sabe exatamente quem contou primeiro, mas todo mundo jura ter ouvido de fonte segura. Nesse caso específico, um eleitor de Flávio Bolsonaro olhou para o calendário e anunciou, com a solenidade de quem acabara de descobrir uma nova lei da física:
— Prestem atenção. Quarta-feira é dia 30 de setembro. Quinta-feira vira dia 1º de outubro. E domingo…
Fez uma pausa, daquelas com ar dramático que antigamente pertenciam aos grandes atores e hoje pertencem aos administradores de grupos de WhatsApp.
— Domingo é 22, completou.
Houve silêncio e alguém quase derrubou o copo, enquanto um terceiro decidiu conferir o celular. O bolsonarista sorriu com a tranquilidade dos homens que acreditam ter colocado até o calendário a serviço de sua causa.
De fato, Flávio Bolsonaro disputa a Presidência com o número 22, enquanto Lula concorre com o 13. O primeiro turno, para desespero da matemática criada naquela mesa, será mesmo no domingo, 4 de outubro. Mas fatos nunca impediram uma boa piada eleitoral.
Foi então que o lulista, sentado do outro lado, mexeu lentamente o café. Sem mostrar-se abalado, olhou para o adversário e perguntou:
— Quer dizer que agora podemos pular os dias?
— É apenas uma interpretação política do calendário, retrucou o interlocutor.
— Então está resolvido, enfatizou o petista.
— Resolvido como? Explica isso aí;
— Depois do dia 1º vem o 13. Chegamos primeiro.
Uma nova pausa até que a gargalhada geral silenciou, ao saber que o calendário gregoriano acabava de sofrer seu segundo golpe em menos de cinco minutos.
O eleitor do 22 protestou:
— Mas vocês não podem eliminar onze dias!
— E vocês podem eliminar vinte?
Ocupantes de mesas próximas explodiram em novas gargalhadas, com alguém lembrando que estava inaugurado o calendário eleitoral brasileiro.
Nele, outubro não teria necessariamente 31 dias. Teria os dias convenientes a cada partido. Pela esquerda, depois do dia 1º poderia vir o 13. Pela direita, seria perfeitamente legítimo saltar diretamente para o 22. Os demais candidatos, percebendo a fraude cronológica, certamente reivindicariam seus próprios números.
A essa altura, houve quem sugerisse propor uma representação ao Tribunal Superior Eleitoral contra o papa Gregório XIII, responsável pela reforma do calendário no século XVI, sob a acusação de interferência indevida no processo eleitoral brasileiro. Convencionou-se, porém, que isso seria inútil.
Justificativas não faltaram, como o fato de Gregório XIII não ter título de eleitor, nem CPF e muito menos perfil nas redes sociais para ser cancelado.
O episódio, embora imaginário na forma e absolutamente plausível no espírito, revela alguma coisa interessante sobre o Brasil destes dias. A campanha entrou naquela fase em que pesquisas, discursos, acusações, decisões judiciais e promessas disputam espaço com o humor popular uma arma muito mais difícil de controlar. Porque o meme não pede licença ao marqueteiro, ele nasce no balcão da padaria, atravessa a mesa do bar, entra no elevador, invade o grupo da família e, quando alguém percebe, já percorreu o país.
Ouvinte atento de tudo o que se falava, embora sem manifestar minha opinião, aprendi uma pequena lição para estes dias que antecedem as urnas. Flávio Bolsonaro é 22. Lula é 13. Os outros candidatos também têm seus números. E cada eleitor terá o direito de apertar na urna aqueles algarismos que sua consciência mandar. A Justiça Eleitoral confirma que o primeiro turno será em 4 de outubro, não no dia 13 nem no 22. E o calendário, pelo menos oficialmente, continua resistindo à polarização.
Ainda bem, porque democracia já é suficientemente complicada contando os dias na ordem certa. Se começarmos a permitir que cada eleitor escolha também a sequência do calendário, outubro poderá terminar antes de começar. É precisamente aí que a velha conversa de bar encontra o jornalismo, uma vez que nem toda notícia precisa nascer de um escândalo. Algumas aparecem entre uma gargalhada e outra, lembrando que adversários políticos não precisam necessariamente transformar-se em inimigos pessoais.
Um pode gritar 22 e outro responder 13. Depois os dois podem discutir quem paga a conta. E nesse ponto, curiosamente, desaparecem as diferenças ideológicas. É quando trocam olhares, apontam para o garçom e dizem:
— Pendura!
………
José Seabra é CEO fundador de Notibras

