A insustentável leveza dos seres

Eduardo Martínez
18 minutos de leitura
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Como sempre fazia quase todos os sábados pela manhã desde a separação, Laércio apertou a campainha da casa de Luiza. Tinha ido buscar Lucas, o filho nascido do casamento deles, união que havia terminado formalmente há um ano para o seu ainda latente inconformismo.

— Bom dia, Luiza! O Lucas já está pronto?

— Entre, Laércio, precisamos conversar!

Antevendo problemas, pois conhecia bem o tom de voz da ex-esposa, ele obedeceu sem mais questionamentos.

Ao entrar na sala, viu cinco mulheres sentadas nos sofás. Lembrava de algumas delas, amigas de Luiza desde antes do casamento.

— Luiza, o que está havendo? Onde está o Lucas?

— Ele foi passar o fim de semana com os meus pais.

— Como assim? O nosso acordo de guarda compartilhada prevê que ele fique comigo nos fins de semana, salvo alguma excepcionalidade. E você não me avisou nada sobre hoje!

— A Luiza decidiu revisar esse acordo para o bem do Lucas, falou uma das amigas.

— O futuro do filho de vocês está acima de qualquer acordo porventura já celebrado, acrescentou outra.

— E nós estamos aqui para apoiá-la nesta decisão, arrematou uma terceira.

Laércio, em regra um homem calmo e afável, nervosamente replicou:

— Como assim? Por que isso tudo, Luiza?

— Acalme-se, Laércio, como já dissemos, é para o bem do Lucas, reiterou mais uma amiga.

— Não estou falando com vocês! Luiza, por favor, pode explicar essa brincadeira de mau-gosto?

Luiza, então, finalmente esclareceu a questão:

— Trata-se do seu irmão! Se você quiser continuar vendo o Lucas nos fins de semana, vai ter que se mudar da casa dele.

— Como assim? É lá que eu moro! O que o Lauro tem a ver com o nosso acordo de guarda compartilhada?

— Tem muito, Laércio! Ontem o Lucas me perguntou o que era “uma transa virtual”, expressão que ele ouviu da boca do seu irmão. Definitivamente, isso não é conversa para um menino de seis anos de idade!

— Bem, nós dois sabemos que o Lauro não é exatamente um santo, mas ele é solteiro e isso não é um motivo tão grave assim para crucificá-lo.

— Tem mais, outro dia peguei o Lucas mexendo no meu celular. Ele acessou o “Jogo do Tigrinho” e disse que viu o tio Lauro apostando nisso. Não quero que o meu filho fique viciado nessas porcarias on-line que já deveriam estar proibidas por lei.

— Você tem toda razão nisso, mas posso conversar com o Lauro para ele manter os seus vícios cibernéticos longe dos olhos do nosso filho.

— E não é só isso, a cada mês vejo uma namorada diferente enfiada por lá. Ele é um Don Juan incorrigível, usa e depois descarta as mulheres como se elas fossem camisas velhas.

— Bem, às vezes são as namoradas que descartam ele…

Nesse momento, um coro implacável e sincronizado interrompeu o diálogo do ex-casal:

— Você tem que decidir entre o seu irmão e o seu filho, Laércio!

— O Lucas não pode frequentar mais um ambiente encharcado de depravação e de vícios!

— E sabemos que muitas vezes o seu irmão ainda abusa da bebida!

— Ele é um caso perdido, sempre será uma péssima influência para uma criança!

Resolutamente, Luiza encerrou a conversa:

— Quando você resolver o problema, voltaremos a conversar. Tenha um bom dia, Laércio!

Revoltado com a situação, Laércio retornou cabisbaixo para a casa do convicto-solteiro irmão mais velho. Ele tinha lá os seus defeitos, mas o acolhera generosamente depois do fim do casamento.

O salário de bancário não permitia que ele pudesse alugar um apartamento em um bairro próximo da antiga residência, onde a ex-esposa ainda morava. E a situação só se agravou com a pensão-alimentícia que ele tinha de pagar. Sabia que a ex-esposa não estava inteiramente errada, todavia, ruminava inconformado:

— Bem que ela podia ter me dado um tempo para conversar com o Lauro sobre essas questões. Sei que, do jeito dele, ele também ama o Lucas.

Após tomar conhecimento da exigência de Luiza, Lauro mostrou-se tão ou mais indignado que o irmão:

— Ela nunca gostou de mim mesmo, mas não pode fazer isso, não pode me afastar do meu sobrinho, isso é muito cruel e injusto!

— Pois é, mano, entretanto, o fato é que os seus hábitos e o seu estilo de vida, digamos… heterodoxos e ultraliberais, não ajudaram muito na minha argumentação com a Luiza e as suas confidentes/conselheiras.

— Irmão, eu sou um pintor, um artista tem direito a algumas extravagâncias. Apesar de tudo, sempre tentei ser um tio legal para o Lucas.

— Sei disso, mas lamentavelmente parece que a minha ex-esposa está decidida e bem-assessorada na sua resolução de nos afastar de você.

Nesse momento, o diálogo dos irmãos foi interrompido pela chegada da avó de Lucas.

— Bom dia, rapazes, onde está o meu querido netinho?

Diante do silêncio constrangido dos dois filhos, a pergunta de dona Luciana foi respondida por Eufrásia, a assistente do lar que nunca tinha papas na língua:

— Ele não vem mais, para maiores informações, fale com o seu filho promíscuo!

Antes que alguém se manifestasse, o filho dos vizinhos que tinha a mesma idade de Lucas irrompeu na sala com uma bola de futebol nas mãos:

— Tio Lauro, cadê o Lucas?

Lauro, acossado por todos os olhares do recinto, não se conteve. Movido por um surto quase religioso, levantou-se e falou em altos brados:

— Certo, certo, eu assumo a culpa dessa tragédia! Mas prometo que vou reverter a situação, deixem comigo!

A seguir, o dono da casa dirigiu-se ao banheiro, tomou um banho demorado, borrifou o seu melhor perfume francês no corpo todo, vestiu a sua roupa esporte mais classuda, entrou na garagem e, para perplexidade de familiares e agregados, saiu queimando os quatro pneus do seu Audi.

Na casa de Luiza, as seis amigas que estavam tomando chá ouviram a campainha tocar.

— Lídia, atenda por favor, deve ser o Laércio novamente. Diga que não quero mais falar com ele por hoje.

— Pode deixar, Luiza, vou despachá-lo em dois tempos!

Ao abrir a porta, a amiga de Luiza, inebriada pelo perfume do homem a sua frente, ouviu um “bom dia” apressado e um “com licença, moça” que não admitia interposição.

Estupefatas, as seis amigas pensaram estar diante do próprio Brad Pitt na sua performance em “Sr.& Sra. Smith”.

— Meninas, quer dizer, senhoras, eu sou o Lauro, tio do Lucas! Gostaria de dar uma palavrinha com vocês, se me derem esse prazer, é claro!

Engolindo um seco, Luiza perguntou rispidamente:

— O que você veio fazer aqui, Lauro?

— Olá, Luiza! Nossa, você está muito bem, já fazia um tempinho que a gente não se via né? Parece que o tempo gira em sentido contrário para você!

Corando, Luiza replicou, tentando manter a autoridade perante o grupo de amigas:

— Olha, Lauro, não perca o seu tempo com os seus galanteios, eu não vou mudar de ideia sobre o que já disse para o seu irmão!

— Claro, Luiza, eu entendo, mas permita que eu abra o coração com você e suas amigas.

— A Luiza está certa, não somos adolescentes e nem adianta você tentar nos seduzir com esses olhos verdes de piscina.

— Como é o seu nome, moça?

— É Vitória!

— Vitória, lindo nome, percebe-se que você é uma mulher vitoriosa em todos os sentidos!

— E nem adianta abrir esse sorriso de George Clooney… Meu nome é Lídia!

— Ah, Lídia, o nome já diz: bela, nobre e delicada, obrigado pelo elogio! Bem, moças, eu quero admitir os meus erros com o Lucas, eu realmente falei bobagens na frente dele e minha vida não serve de exemplo, mas tive uma infância difícil e acredito que muitos desses desvios têm origem na castração psicológica que sofri por parte de minha mãe.

— A minha mãe também quase acabou com a minha autoestima… Sou Vivian!

— Vivian, nome magnífico, significa cheia de vida! Aconteceu com você também? Olha, não podemos desistir de nós mesmos, temos que nos esforçar para tornar a vida mais doce para os nossos filhos!

— Lauro, pare com essa demagogia, você nunca teve e nunca vai ter filhos, admoestou Luiza.

— Sim, talvez eu nunca seja abençoado com essa dádiva que vocês já obtiveram… provavelmente, eu terei que viver com mais essa dolorosa lacuna existencial.

— Luiza, isso foi muito desnecessário! Ah, meu nome é Janete, Lauro!

— Nome de pessoa afetuosa e bondosa, obrigado, Janete! Então, só para complementar, tenho consciência de que preciso melhorar como pessoa, mas creiam, sinto que a minha convivência com o meu sobrinho já me fez progredir muito nesse sentido.

Percebendo o clima de mágica empatia e o efeito magnético que Lauro provocou nas amigas, Luiza teve um surto:

— Gente, não permitam que esse Casanova enrole vocês, eu sei que ele está mentindo, mentindo e mentindo… disse ela, começando a soluçar.

Então, Lauro abraçou a ex-cunhada e falou carinhosamente:

— Estamos todos do seu lado, Luiza! Vamos resolver isso juntos, como uma família.

Então, com lágrimas nos olhos, as amigas aplaudiram o demorado abraço que poderia significar uma reconciliação entre os dois contraparentes.

Passado o momento de enlevo, Lauro tomou novamente a palavra:

— Amigas, permitam que eu as chame assim a partir de agora, gostaria de convidar vocês para um churras à beira da piscina na minha casa. Pode ser no próximo sábado, o que acham?

Após a entusiasmada aceitação unânime das cinco amigas, Lauro dirigiu-se à Luiza, que mantivera uma atitude neutra em relação ao convite dirigido ao grupo.

— Minha estimada ex-cunhada, antes disso você me daria o prazer de jantar comigo amanhã?

— Está bem, respondeu Luiza, em um tom hesitante.

— Maravilhoso, então busco você às vinte horas.

Após chegar em casa, Lauro foi abordado por um ansioso Laércio.

— Onde você esteve? Ficamos todos preocupados!

— Fui acertar algumas contas comigo mesmo, irmão.

— Como assim? Isso tem a ver com o nosso problema com o Lucas?

— Sim, mas é muito mais complicado, falou Lauro, enigmaticamente. Espere alguns dias e todos vamos saber no que vai dar.

Na noite seguinte, conforme combinado, Lauro apanhou Luiza pontualmente às 20 horas. Propôs jantarem em uma discreta trattoria no bairro do Bixiga, o que ela aceitou de pronto.

— Muito bem, Lauro, agora diga o que você pretende com tudo isso. Por que me convidou para esse jantar?

— Confesso que nem eu sei muito bem, Luiza. Talvez você que é psicóloga possa explicar melhor do que eu conseguiria.

— E eu confesso que ontem, por alguns momentos, até acreditei na sua sinceridade. Mas foi uma comédia da sua parte, não é mesmo?

— Pior que não, Luiza! Creia você ou não, acho que o temor de ficar distante do meu sobrinho arrancou de mim muitas máscaras… Tudo o que eu disse ontem é no que realmente acredito hoje.

— Sério? Você paparicou e até seduziu as minhas amigas, fez uma autocrítica muito suspeita, tudo para permitir que o Lucas continue frequentando a sua casa. Isso é até compreensível na medida em que você realmente tem afeto por ele, mas não acredito que você queira mudar o seu estilo de vida.

— Sacanagens virtuais, jogo do Tigrinho, uma namorada por mês, bebida em excesso dois dias por semana e muito cinismo em relação ao ser humano… Você tem todo o direito de não acreditar que desejo deixar tudo isso para trás. Há dois dias eu também não acreditaria.

— A ser verdade o seu desejo de mudar, o que provocou isso foi apenas o temor de perder a convivência com o Lucas?

— Agora sei que não é apenas isso, eu também tive medo de perder o vínculo com você. De não mais te ver e de não mais conversar contigo nos domingos em que buscas o Lucas lá em casa.

— Medo de perder o vínculo comigo? surpreendeu-se, Luiza. — Ora, Lauro, você nunca gostou de mim desde que comecei a namorar o seu irmão.

— Você acha mesmo isso? Na verdade, eu é que sempre tive certeza de ser uma persona non grata para você.

— Bem, eu realmente não gosto dos seus vícios, mas isso nunca me impediu de considerar você um artista brilhante, um homem muito charmoso e uma pessoa inteligentíssima.

— E eu sempre achei você uma mulher superinteressante, culta, magnética, incisiva e além de tudo… linda além da conta!

Nesse momento, os dois ex-cunhados ficaram presos em um silêncio obsequioso e repleto de significados que, ao deixarem de ser ocultos, embaraçavam sobremaneira a ambos.

— Lauro, o que está acontecendo conosco?

— Eu tenho até medo de responder, Luiza… olha, vou chamar o garçom e pagar a conta. Tenho algo no porta-malas do carro para te mostrar.

— Está bem, concordou Luiza, quase em transe.

No estacionamento do restaurante, Lauro abriu o porta-malas do carro e mostrou à Luiza uma imensa pintura.

Arregalando os olhos, ela mal conseguiu articular:

— Sou eu… foi você quem pintou?

— Sim, pintei esse quadro dois meses depois que vi você pela primeira vez.

— Ficou lindo, quer dizer, muito melhor do que eu realmente sou!

Então as palavras já não podiam mais dar conta do momento. Em um movimento recíproco, os dois se abraçaram e se beijaram demoradamente.

Quando acordaram na casa de Luiza, muitas perguntas sobrevoavam as mentes do novo casal.

— Como será que o Laércio e o Lucas vão reagir a essa situação? Murmurou, Luiza.

— Ainda não podemos saber, minha querida! Seja como for, em toda a minha vida, nunca senti coração e mente falarem de um jeito tão leve aos meus ouvidos.

— Leveza… Interessante você falar nisso, espera um pouco.

— O que foi?

— Deixa eu citar um trecho do livro que estou lendo para você:

“Nunca saberemos, de fato, se a intuição que nos determinou seguir certo sentimento foi correta ou não. Não há tempo para essa verificação. Por isso, precisamos cuidar das nossas emoções com carinho muito especial.” (A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera)

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Emiliano Cruz [Instagram @Jorge23215] é funcionário público federal, escritor e historiador, autor da coletânea de contos “A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS” – Disponível no link da Estante Virtual:

.https://www.estantevirtual.com.br/livro/a-felicidade-e-os-risiveis-amores-de-todos-nos-O4P-6970-000

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