Esta é uma história real. Para saber mais, leia as partes 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7. (links no final).
Em uma tarde sem muito movimento, entrou na agência uma senhora de idade avançada, que trazia consigo uma criança que deveria ter cerca de nove anos. Esta senhora deu uma boa olhada em todos os funcionários, assim como quem quer escolher uma pessoa e, depois de me observar por uns momentos, veio direto à minha mesa, sentou-se, me deu boa tarde e tascou uma pergunta que me deixou surpreso: — O senhor é casado e tem filhos? Na hora achei muito estranha a pergunta, mas respondi que não, não tinha esposa e nem filhos.
Então ela me disse que era bisavó daquela criança e me contou a seguinte história: que a namorada do seu filho ficou grávida ainda na adolescência e, após o nascimento da criança, o casal a abandonou e ela não teve outra opção a não ser cuidar da neta. E que o mesmo problema se repetiu com esta neta que, também na adolescência, ficou grávida e logo depois do nascimento abandonou a criança, que era aquela menina que estava ali na minha frente.
Ou seja, ela teve o mesmo problema duas vezes e agora, com a idade avançada, ela me disse que não tinha condições de cuidar da bisneta, por isso ela ia me “dar” a criança. E ainda que aquela menina poderia trabalhar como minha empregada doméstica, e que se eu não gostasse do seu serviço, poderia dá-la a outra família. Também disse que se eu quisesse poderia no futuro até casar com ela.
Olhei assustado para o meu gerente que havia ouvido a conversa. Ele me fez um sinal para que eu fosse à sua mesa. Pedi licença àquela senhora e fui conversar com ele.
Ele me explicou que era comum famílias pobres do interior entregarem filhos, principalmente meninas, a famílias com melhores condições financeiras, muitas vezes sob a promessa da família que recebia a criança de que ela teria comida, teto e estudos. Mas muitas delas cresciam transformadas em empregadas domésticas sem remuneração ou direitos.
Ele disse também que a menção explícita da entrega de uma criança escancarava uma situação de miséria absoluta de famílias que viam os filhos como um fardo, pois não tinham como criá-los. Então davam as crianças porque, naquela época, esse tipo de ocorrência raramente virava estatística ou processo judicial, pois ocorria às margens da lei e era tratada como “caridade” pelas comunidades locais.
Na hora, sabendo que havia ali uma mulher que queria mesmo me dar uma criança, eu fiquei sem chão. Voltei à minha mesa e prontamente neguei a “oferta” dela, e que ela deveria ir até a delegacia para registrar uma queixa por abandono de incapaz. Realmente foi algo muito triste, porque aquela senhora certamente iria procurar uma outra pessoa para dar aquela criança e, provavelmente, como meu gerente também me disse mais tarde, alguém aceitaria. Nunca mais eu as vi ou tive notícias delas e também nunca fiquei sabendo de onde vinham ou quem eram. A única certeza é que não eram moradoras da cidade.
Recentemente eu vi na televisão dois casos muito parecidos:
Duas reportagens exibidas pelas redes Globo e Record que trouxeram casos chocantes de mulheres dadas por suas famílias na infância e que passaram décadas em trabalho análogo à escravidão e buscavam reparação.
1. Uma mulher de 62 anos foi resgatada em julho de 2026 em um condomínio de luxo em Eusébio (Região Metropolitana de Fortaleza). Ela foi entregue pela mãe biológica a uma família quando tinha apenas 7 anos de idade em 1971 e ela trabalhou para essa família durante 55 anos, sem receber salário e tampouco estudos.
2. Uma mulher de 62 anos foi resgatada em junho de 2026 em Bragança Paulista, no interior paulista. Ela foi dada à família que empregava o próprio pai, isso aos 12 anos em 1977, sob a promessa de que iria estudar, mas foi submetida a serviços domésticos forçados por quase cinco décadas.
PS.: No Brasil, entregar um recém-nascido ou uma criança diretamente para outra pessoa criar é crime, mas fazer a entrega voluntária e legal para a adoção através da Justiça NÃO é crime.
Quer saber o que você vai ler na parte 9? Me diz se você já imaginou entrar numa agência bancária, sem caixas eletrônicos, pedir o seu extrato e receber uma folha de cartolina alaranjada com toda a movimentação da sua conta? Isso mesmo, cartolina, como essas que você compra na papelaria para fazer um trabalho escolar! Ah, e já pensou também em ter os seus dados de Identificação de correntista gravados nos talões de cheque com plaquetas de metal idênticas àquelas usadas por militares? Lá em Colmeia era assim, e eu te conto toda essa história na parte 9!
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Leia a parte 1: https://www.notibras.com/site/cafundo-do-judas/
Leia a parte 2: https://www.notibras.com/site/quase-morri/
Leia a parte 3: https://www.notibras.com/site/aqui-o-sistema-e-bruto/
Leia a parte 4: https://www.notibras.com/site/o-roubo-das-galinhas/
Leia a parte 5: https://www.notibras.com/site/pipa-mortal/
Leia a parte 6: https://www.notibras.com/site/o-inspetor/
Leia a parte 7: https://www.notibras.com/portal/cafe-literario/passei-no-bb-parte-7-radio-walkman-e-tv/

