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Passei no BB (Parte 3)

Aqui o sistema é bruto!

Publicado

Autor/Imagem:
Saulo Braga - Texto e Foto

Esta é uma história real. Para saber mais, leia as partes 1 e 2 (links no final).

Depois de passar no concurso do Banco do Brasil e “pegar” dois aviões a partir do Rio de Janeiro, com conexão em Brasília, para chegar à cidade de Conceição do Araguaia (PA), ainda faltava o destino final que era a cidade de Colmeia, hoje no atual estado do Tocantins, onde eu tomaria posse.

E lá estava eu na Rodoviária de Conceição do Araguaia (PA) que era bastante precária. Algo me chamou bastante a atenção, pois estranhei muito: os ônibus tinham vários feixes de mola na suspensão, e, para entrar neles, tínhamos que primeiro acessar uma escada e depois os degraus do próprio ônibus. Passamos por cidades muito pequenas e eu ainda me lembro bem de três delas: Goianorte, Pequizeiro e Goiany dos Campos.

Estávamos no meio do verão. Eu nasci em Belo Horizonte e fui ainda criança para o Rio de Janeiro. Estranhei bem o calor, mas acabei me acostumando. Porém não estava preparado para o calor que fazia no verão no Norte do país. O ônibus não tinha ar condicionado e, por isso, a janela estava sempre aberta e entrando bastante poeira. Não havia rodoviária nessas cidades e as paradas eram feitas em algum comércio. Lembro que em uma das paradas eu desci e, ao voltar, vi a silhueta das minhas pernas e costas estampada na poltrona do ônibus.

Nunca tinha visto uma estrada tão larga e que fosse “estrada de chão”. Havia buracos que poderiam engolir um Fusca. Só então fui entender o porquê de os ônibus terem vários feixes de mola. Só assim para aguentar o tranco. Foram cerca de 100 quilômetros percorridos em muitas, muitas horas de viagem mesmo. Não me lembro ao certo de quantas horas, mas foi a viagem de ônibus mais cansativa de toda a minha vida.

Finalmente chegamos à cidade de Colmeia e já era noite. Tinha uma rodoviária bem pequena que comportava apenas três ônibus e uma lanchonete. Por sorte ainda tinha um taxista. Perguntei se ele sabia onde era a casa do gerente do Banco do Brasil e ele respondeu que sim. Então eu pedi que me levasse e, em cerca de dois minutos, chegamos ao destino. Até comentei com o taxista que se ele tivesse me informado que era tão perto eu teria ido a pé, e ele disse que eu tinha perguntado se ele sabia onde era a casa do gerente, e não a distância… “Fazer o quê, né?”

Bati à porta da casa do Gerente várias vezes e ninguém atendeu. Havia outras casas ao lado, que mais tarde eu saberia serem casas também de funcionários do Banco, e eu bati à porta de todas elas e ninguém atendeu. Será que havia algum feriado na cidade?

Era o dia 16 de janeiro de 1987, uma sexta-feira e a minha posse estava marcada para segunda-feira, dia 19. Já passava das nove horas da noite. Joguei a mala por cima do muro da casa do gerente e voltei a pé à rodoviária para comer alguma coisa e tentar obter alguma informação, mas já estava fechada.

Então comecei a andar sem rumo pela cidade, mas não havia nenhum comércio aberto e as ruas estavam desertas. As luzes da cidade eram de vapor de sódio, bem amarelas, e como todas as ruas da cidade eram de terra alaranjada, mesmo uma leve brisa que levantasse a poeira, dava às ruas desertas um tom nostálgico de “cidade fantasma.”

Então comecei a ouvir um som de forró ao longe e fui lá para saber o que era. Quase chegando cruzei com um homem que levava duas crianças e eu perguntei a ele de onde vinha aquele som. Ele falou que o som vinha da AABB, Associação Atlética Banco do Brasil, uma rede de clubes recreativos e esportivos voltada a funcionários e comunidade. Disse a ele que eu era o novo funcionário e ele me informou que seria meu gerente e pediu para que eu fosse conhecer os outros colegas lá na AABB. Esta AABB era na verdade apenas um bar.

Como o carro do gerente havia sido roubado e ele conseguiu recuperá-lo, ele estava fazendo um churrasco por esse motivo. Ali pude conhecer a maioria dos colegas. Fiquei sabendo que na cidade havia apenas um hotel, o hotel do Domingos. Pensei em me hospedar lá, mas o gerente disse que havia uma república e eu poderia ficar nela com os novos colegas.

Findo o churrasco, fomos para a república que era uma casa com dois quartos, um banheiro e mais um cômodo que era dividido entre sala e cozinha. Recebi uma manta que serviria de colchão e um travesseiro emprestado para dormir naquela noite e, no dia seguinte, teria que comprar um colchão, roupa de cama, travesseiro e um guarda-roupa.

Pensei que íamos dormir, mas não. A partir dali conheceria um dos viários costumes da cidade que eu nem sabia que existiam. Os colegas do Banco e alguns clientes que estavam no churrasco, todos mais ou menos da mesma idade que eu, 24 anos, iriam sair pela cidade para fazer serenata para as suas namoradas. Porém a música não viria de um violão, mas sim de uma enorme boombox, um sistema de som portátil de alta potência, projetado para oferecer graves profundos e volume elevado, originalmente famosa nos anos 1980 e que funcionava com aquela enorme pilha “D”. Como não havia rádio na cidade, eles usavam fitas K7.

Eu fui num caminhão três quartos de propriedade de um cliente. Como eu era novato, ganhei a preferência de ir dentro da boleia e não na carroceria. Eu sentei no meio e do meu lado direito sentou-se um cliente que parecia ter bebido muito lá no churrasco e fez menção que iria vomitar. Então, pasmem, o cliente-motorista se esticou por cima de mim e abriu a porta e depois passou a sua perna direita por cima das minhas duas pernas, encostou a sua bota no quadril do cliente ao meu lado e simplesmente empurrou ele para fora do veículo dizendo:

– Ninguém vai vomitar no meu carro!

Naquele momento descobri o exato significado do dito popular “Aqui o sistema é bruto!”

O Motorista arrancou com o caminhão acelerando forte e o derrapar dos pneus jogou bastante terra no homem que foi empurrado do caminhão e acabou engolido pela poeira. Eu fiquei olhando aquela cena surreal até que tudo lá atrás também desapareceu na poeira. Na hora eu lembrei de uma frase que eu já ouvira bastante: “O Rio de Janeiro não é para amadores”… e eu incluiria: “O Tocantins também não” rsrs.

Na parte 4 eu conto para vocês como foi a serenata com a boombox e como eu perdi três calças.

…………….

Leia a parte 1: https://www.notibras.com/site/cafundo-do-judas/

Leia a parti 2: https://www.notibras.com/site/quase-morri/

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