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Passei no Banco do Brasil

Cafundó do Judas

Publicado

Autor/Imagem:
Saulo Braga - Texto e Foto

Em 1986, depois de três tentativas, finalmente passei no concurso do Banco do Brasil, para tomar posse na agência da cidade de Colmeia, hoje situada no atual estado do Tocantins. Só 2.200 km do Rio de Janeiro.

Como eu já sabia que teria que fazer o teste de datilografia que era eliminatório, logo fiquei treinando na máquina manual, pois seria nela que eu faria a prova: “a s d f g”… Quem já fez concurso sabe como é!

Eu já tinha feito um curso de datilografia para o concurso do INPS, então fiquei só treinando mesmo. Se não me engano, no concurso do BB, a regra era 900 toques em 6 minutos. Logo eu já estava fera. Datilografava sem olhar para o teclado. Fera mesmo.

No concurso que eu já tinha feito para o INPS, o teste de datilografia seria aplicado antes da prova escrita. O teste foi realizado em uma grande sala não refrigerada, por isso o calor era grande. As máquinas estavam em cima de longas tábuas de madeira que eram suportadas por cavaletes também de madeira, desses que são usados em obras. Eram quatro máquinas em cima de cada tábua.

Havia dezenas de candidatos que iam fazer o teste ao mesmo tempo. Eu já suava a baldes, pelo calor e pelo nervosismo. Nos mandaram sentar e colocar o papel na máquina, nos entregaram o texto a ser datilografado e um fiscal deu o sinal de partida para o início do teste. Eu comecei a datilografar, porém a máquina “andava” de um lado para o outro, pois quatro candidatos datilografando ao mesmo tempo faziam a tábua tremer e as máquinas pulavam. Eu passei no teste, mas não passei no concurso.

Quando eu fui chamado para fazer o teste de datilografia para o Banco do Brasil, fiquei temeroso de ser igual ao teste do INPS, ou seja, com muitos candidatos aglomerados datilografando em cima de tábuas apoiadas em cavaletes. No dia marcado, ao chegar ao local do teste fui recebido por um funcionário do banco que me levou até a uma sala com ar condicionado, onde havia uma mesa com uma máquina manual e outra mesa com uma IBM esfera, máquina futurista para sua época, com a qual eu também já tinha feito no “CEOP” um curso de datilografia, cujo diploma tenho até hoje.

Fiquei surpreso, pois faria o teste sozinho. O funcionário me perguntou em qual máquina eu gostaria de fazer o teste e eu escolhi a IBM e pensei comigo: “vou arrebentar”! Ele então ordenou que eu colocasse o papel na máquina, entregou-me o texto a ser copiado e disse “pode começar”. Ato contínuo, saiu da sala.

Eu comecei a datilografar e só então percebi que o funcionário não tinha acionado nenhum cronômetro. Rapidamente tirei o meu relógio de pulso e acionei o cronômetro. Terminei o teste em menos de 6 minutos e ainda deu tempo de ver que eu havia cometido alguns erros, mas que estavam bem abaixo do limite máximo permitido.

Meia hora depois, o funcionário voltou e perguntou se eu já havia terminado. Respondi que sim, e ele abriu uma gaveta, tirou um carimbo enorme e carimbou no texto que eu havia datilografado… “APROVADO”. Fiquei indignado e informei a ele que eu havia treinado durante vários meses e ele nem cronometrou o meu teste e nem viu quantos erros eu tive. Disse também que se ele tivesse feito isso, verificaria que realmente eu havia passado no teste. Ele então me perguntou:

— Não é você que vai tomar posse lá na cidade de Colmeia?

E eu respondi que sim e ele retrucou:

— Você vai tomar posse lá onde “Judas perdeu as botas”. E você acha que eu ainda vou exigir que você seja um bom datilógrafo?

Dei uma risada porque já sabia da precariedade das cidades do interior que ficavam mais distantes, e que nenhum aprovado queria tomar posse nelas. Eu fui o aprovado nº 530, mas naquela época os candidatos mais bem colocados é que iam suprir as vagas nas cidades mais distantes, pois lá havia a necessidade premente de funcionários.

A expressão “onde Judas perdeu as botas” não é considerada ofensiva. Ela pertence ao folclore popular brasileiro e é apenas uma forma bem-humorada de se referir a um lugar muito distante, isolado ou de difícil acesso, sem conter discurso de ódio ou preconceito.

Na parte 2 eu conto como foi chegar à cidade de Colmeia e como ela era!

…………………………

O escritor Saulo Braga é aposentado do Banco do Brasil. Por uma dessas coincidências da vida, já de volta à cidade do Rio de Janeiro, conheceu o escritor Eduardo Cesario-Martínez e se tornaram amigos. O Saulo acabou se tornando personagem do primeiro livro do Eduardo, o romance Despido de ilusões, escrito nas dependências do BB em 2003 e lançado em 2004.

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