Esta é uma história real. Para saber mais, leia as partes 1, 2, 3, 4, 5 e 6. (links no final).
Como citei na Parte 3, não havia rádio na cidade. Eu havia ligado para o gerente para saber de alguns detalhes da cidade, principalmente sobre entretenimento. Ele falou que não tinha teatro e nem cinema e que era para eu levar o meião e a chuteira, porque o futebol era uma das poucas diversões disponíveis. Na verdade, era a única. Uma vez ou outra aparecia um circo na cidade. Diversão mesmo, somente os bares… Uma tia que também tomou posse em uma cidade do interior alertou-me sobre a possibilidade de alcoolismo. Isso porque como não havia diversão, alguns funcionários do BB, novos ou antigos, se perdiam no álcool.
Não sei como funciona hoje, mas antigamente passar em um concurso do Banco do Brasil frequentemente significava ser enviado para regiões muito isoladas do país, que foi o meu caso. Jovens vindos de grandes centros urbanos tomavam posse em cidades pequenas que careciam de opções de lazer. Em muitos desses locais, o único ponto de encontro social pós-expediente eram os bares. Ali jogavam sinuca, contavam causos e bebiam. A bebida acabava se tornando uma das poucas ferramentas de socialização e fuga do tédio e da solidão. Felizmente nada disso me afetou. Ah, quando eu falo “bares”, não estou me referindo aos “barzinhos” que existem hoje, mas sim os conhecidos “botecos”, na maioria das vezes frequentados apenas por homens.
Não me lembro de ter perguntado ao gerente sobre rádio e televisão, mas como já sabia que era uma cidade distante de tudo, levei um rádio que pertenceu a minha avó rsrs. Um Mitsubishi transistorizado Modelo 8X-584A, fabricado no Japão pela Mitsubishi Electric Corporation durante a década de 1960 e montado pela Evadin na Zona Franca de Manaus. Ainda quando morava no Rio de Janeiro, eu subia ao terraço da minha casa e as “Ondas Curtas” do rádio conseguiam sintonizar emissoras de outros estados e até de outros países, como a rádio BBC de Londres e a Voz da América, por exemplo, mas, lá em Colmeia, as ondas curtas não sintonizavam nada rsrs!
Próximo da minha transferência, podia-se ouvir uma rádio pirata na cidade, mas aí eu já não tinha mais o rádio, pois, quando um cliente viajou ao Rio de Janeiro, pedi a ele que levasse o rádio à minha casa para que minha mãe o trocasse por um Walkman, que foi comprado lá no Rio de Janeiro, porque nem em Colmeia e em nenhuma outra cidade por perto eu poderia comprar tal equipamento. O Walkman é um Coby CX-D70 Auto Reverse, que tocava os dois lados da fita cassete sem precisar virá-la manualmente, e que contava ainda com o Dynamic Bass Boost System, sistema de reforço dinâmico de graves para melhorar a qualidade do som nos fones de ouvido. Tenho o rádio e o Walkman até hoje e também as dezenas de fitas que gravei lá em Colmeia, pois havia uma lojinha onde você comprava a fita virgem e lá mesmo eram gravadas as músicas que você escolhia. Lá as músicas mais ouvidas eram sertanejas e eu, roqueiro desde adolescente, passei a gostar também um pouquinho de música sertaneja, talvez porque era o único tipo de música que se ouvia na cidade, fossem nas festas, nas casas de amigos e nos bares rsrs…
Acho que eu era um dos poucos moradores da cidade a ter um Walkman. Algumas crianças viam aqueles enormes fones de ouvido e ficavam curiosas. Eu então colocava os fones nos seus ouvidos e elas, como não estavam habituadas ao isolamento acústico, achavam que todos ao lado delas ouviam o mesmo que elas no mesmo volume e começavam a falar gritando rsrs.

Uma curiosidade é que quando coloquei os dados do rádio na internet para saber mais detalhes sobre ele, uma das respostas informou que o enfeite que vem na frente do aparelho tem o design muito parecido com o emblema do capô do Chevrolet Impala de 1960. E me pareceu que é isso mesmo, veja aí na foto o emblema do Impala acima do rádio rsrs. A “IA” também informou que, na época, as linhas cromadas e estilizadas em formato de “V”, indicavam um símbolo de modernidade, pela influência da aviação no pós-guerra, pois lembravam as asas dos caças.
O símbolo da Mitsubishi são três losangos vermelhos: “Mitsu” significa três e “bishi” significa castanha d’água que é a palavra usada no Japão para indicar o formato de losango ou diamantes, segundo a IA rsrs…

Ver TV também era complicado. Que eu me lembre, não havia nenhuma antena retransmissora na cidade, mas provavelmente havia uma antena não legalizada e dava para ver um pouco de TV. O engraçado é que nos intervalos, em vez dos comerciais, víamos alguns testes que as próprias emissoras de TV faziam dos seus programas que logo depois iriam para o ar. Ou seja, lá em Colmeia, nos intervalos a gente já via parte da programação que os moradores das cidades grandes só iam ver mais tarde rsrs. Nunca havia visto nada parecido na minha “vida televisiva”, mas infelizmente não tínhamos uma câmera para gravar.
Nas primeiras vezes que eu vi televisão, descobri também um outro costume da cidade. Como o calor era intenso, sempre víamos a TV com a porta aberta para entrar um ventinho, por isso quase sempre a varanda estava cheia de crianças sentadas vendo televisão com a gente. Naquela época, uma TV era coisa rara na cidade, boa parte da população não dispunha deste eletrodoméstico. Então era de bom tom sempre deixar a porta aberta, mesmo que não tivesse muito calor, para que a criançada pudesse ver TV. E o mais interessante é que nunca faziam nenhuma algazarra e sempre estavam com os olhinhos vidrados na telinha. Às vezes algumas crianças adentravam à sala, mas sempre com muita educação, por isso a gente deixava rsrs.
Na próxima publicação, a parte 8, você fica sabendo de uma história bem triste, que envolve crianças abandonadas pelos pais e dadas ou vendidas por outros familiares. E eu quase fui envolvido em um caso desses. Não perca.
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Leia a parte 1: https://www.notibras.com/site/cafundo-do-judas/
Leia a parte 2: https://www.notibras.com/site/quase-morri/
Leia a parte 3: https://www.notibras.com/site/aqui-o-sistema-e-bruto/
Leia a parte 4: https://www.notibras.com/site/o-roubo-das-galinhas/
Leia a parte 5: https://www.notibras.com/site/pipa-mortal/
Leia a parte 6: https://www.notibras.com/site/o-inspetor/

