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Passei no BB (Parte 4)

O roubo das galinhas

Publicado

Autor/Imagem:
Saulo Braga - Texto e Fotos

Esta é uma história real. Para saber mais, leia as partes 1, 2 e 3. (links no final).

Depois de finalmente chegar à cidade de Colmeia, situada no extremo norte do atual estado do Tocantins, saímos à noite para fazer serenata para as namoradas dos colegas, amigos e clientes. Paramos na primeira casa, que era da namorada de um colega, e ele colocou a boombox em cima da boleia, ligou no volume mais alto e deixou rolar a música.

Pela tradição, a namorada deveria sair, fazer um aceno e pronto, a serenata estava concluída. Achei interessante esse costume. Foram várias serenatas naquela noite.

Como estava muito cansado, até que eu dormi bem no colchão improvisado com uma manta, que prepararam para mim lá na república. Pela manhã, o Gerente levou até lá a minha mala. Um dos colegas me cedeu parte do guarda-roupa dele para eu colocar as minhas roupas, e eu logo aproveitei para desfazer a mala.

Comecei tirando três calças novas da Company, marca que era um verdadeiro fenômeno e ícone da moda jovem no Brasil durante as décadas de 1980 e 1990, famosa por ditar o estilo de muitos adolescentes. Elas eram do modelo Lenhador/Carpinteiro, peça de estilo utilitário caracterizada por bolsos extras, costuras reforçadas e o clássico passante lateral para ferramentas. Era o top da moda jovem no Rio de Janeiro. E eu as comprei exatamente para levar e usar em Colmeia pensando que eu ia “abafar”.

Os colegas perguntaram se eu usaria mesmo aquela calça na cidade e eu respondi que sim, e eles logo caíram na gargalhada. Perguntei o porquê de tantas risadas, e eles disseram que logo eu saberia. Até falei que eles não entendiam nada de moda e que aquelas calças eram a “última pedida” da moda no Rio de Janeiro e tinham custado muito caro. Mas eu não “tardei por esperar”rsrs!

Como a parte do guarda-roupa que me foi cedida por um dos colegas não teria espaço para tudo o que levei, eu fui a pé até o centro da cidade, que era pertinho, e comprei colchão, travesseiro e guarda-roupa. Só para constar, nessa época, a rua principal da cidade tinha cerca de 2 Km e hoje, quase 40 anos depois, tem 3 km rsrs.

Neste pequeno tour pela cidade, eu finalmente entendi o porquê das gargalhadas dos colegas da república. Havia uma firma fazendo obras de infraestrutura na cidade e adivinha qual era a calça usada pelos trabalhadores? Sim, calças exatamente idênticas às calças da Company. Tinham bolsos extras, costuras reforçadas e até o passante lateral para ferramentas.

Não sei se eram da marca Company. Nada contra os trabalhadores usarem esse tipo de calça, mas eu certamente viraria chacota entre os colegas caso usasse as minhas. Meu irmão então ganhou três calças novinhas, pois eu as mandei pelo correio para ele no Rio de Janeiro.

Como só havia dois quartos na república e nós éramos seis, dois dormiam num dos quartos e os outros três dormiam no outro quarto. A divisa entre a sala e a cozinha passou a ser feita com o meu novo guarda-roupa.

Na hora de dormir, eu preparava a “minha cama”, que na verdade era só o colchão com lençol no chão mesmo, pois não havia espaço para uma cama na sala. Na manhã seguinte, eu tinha que desfazer tudo.

Os três colegas que dormiam no quarto maior também tinham que dormir no chão. Só os que dormiam no quarto menor tinham cama. E assim foi por cerca de um ano, quando vagou uma casa de dois quartos de propriedade do banco para alugar e que era bem melhor.

Dos sete que moravam na República no primeiro ano, só ficaram quatro e, finalmente, eu pude comprar a minha cama. Mas, no primeiro ano, na casa pequena da República, dormir na sala era problemático porque quem acordava cedo, mesmo sem querer, me acordava, e quem chegava tarde também me acordava.

Certa noite – “e que noite” – descobri mais um costume da região. Fui acordado de madrugada quando chegaram os colegas fazendo uma grande algazarra com algumas galinhas roubadas.

Não sei se tratava-se da tradição do “roubo de galinhas” na Sexta-feira da Paixão, que é um costume folclórico do interior do Brasil (especialmente no Norte/ Nordeste) em que moradores, de madrugada, na verdade “furtam” as aves de vizinhos deixando o dinheiro no “pau do galinheiro”, para pagar por elas. O objetivo não é um crime real, mas sim uma brincadeira para preparar um banquete coletivo que rompe o jejum no Sábado de Aleluia.

 

Como não havia nenhum lugar específico para guardar as galinhas, e eles nem tinham cordas para amarrá-las, eles simplesmente soltaram-nas dentro da casa. Nem preciso dizer que foi pena de galinha para tudo que é lado.

Lembro que, depois de acordado, como já sabia que não ia conseguir dormir mais, e também porque não queria que a minha “cama” virasse galinheiro, recolhi o meu colchão e fui ajudar na preparação da “galinhada”. Havia descoberto então mais um costume lá do norte.

Na parte 5, eu conto sobre o medo das crianças de empinar pipas, o estilo Cowboy de se vestir e a vigência ainda de uma sociedade patriarcal, não perca!

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Leia a parte 1: https://www.notibras.com/site/cafundo-do-judas/

Leia a parte 2: https://www.notibras.com/site/quase-morri/

Leia a parte 3: https://www.notibras.com/site/aqui-o-sistema-e-bruto/

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