Católicos e evangélicos devem descer do ringue e deixar Nossa Senhora em paz

Redação
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Mathuzalém Júnior - Foto José Cruz

Conforme dados do Censo, o Brasil continua sendo um país majoritariamente católico, reunindo cerca de 56,7% de sua população, ou seja, mais de 100 milhões de fiéis no país. A devoção à Nossa Senhora Aparecida, padroeira da nação, é o principal pilar de resistência e união do catolicismo popular. Uma das famosas invocações da Virgem Maria, mãe de Jesus Cristo, Ela simboliza a maternal proteção de Maria sobre o povo brasileiro. Acho que, após a decisão do Tribunal Superior Eleitoral, o simbolismo estará definitivamente dividido. Que seja assim e que esqueçam a Santa.

Nossa Senhora Aparecida não vota, mas estará de olho na dissidência. Triste para gregos, baianos, católicos, evangélicos e umbandistas, mas uma suposta fake news transformou uma antiga disputa religiosa em um campo de batalha às vésperas das eleições do próximo domingo (04). Não bastassem a maior fraude bancária da história do país e a crise que levou o Supremo Tribunal Federal e seus atuais dez ministros à lona, o babado envolvendo os principais candidatos presidenciais e postagens sobre a padroeira é a prova de que, desde 2018, a desinformação é a principal característica das eleições brasileiras.

Lembrando eventos sinistros de 2018 e largamente repetidos em 2022, esse tipo de “fato” encobre o verdadeiro medo de que a suposta mentira se transforme em verdade. Exatamente como os questionadores fizeram nos dois últimos pleitos. Como a vítima era o adversário, nada a reclamar. Como o vento mudou, nada mais lógico para eles do que empurrar eventuais incômodos para debaixo do tapete cinzento e sombrio que atualmente cobre a Praça dos Três Poderes.

Para quem não se lembra, as mesmas mãos que hoje negam o desapreço e tentam afagar os devotos de Nossa Senhora Aparecida agiram com intolerância no modo máximo tanto em 2018 quanto em 2022. Além de tecer loas a torturadores da ditadura, nas redes sociais as mãos do afago de tamanduá escreviam e defendiam com todas as armas a disseminação de mensagens e a pregação de assassinatos e linchamentos públicos de antagônicos, inclusive de presidente e de vice-presidente eleitos.

A resposta para as reclamações dos adversários estava, segundo os que negam o que fazem e o que dizem, na Constituição. E realmente está. Trata-se da liberdade de expressão, cujo inteiro teor só vale para eles. Quando o peso e as medidas mudam de lado é perseguição. Provaram do próprio veneno, mas, ainda que temporariamente, foram salvos por um martelo terrivelmente evangélico. A temporariedade se justifica na repetição de uma mesma tese em aberto no STF, já que seu presidente optou por conhecer antes a posição dos pares do STF que compõem o Pleno do TSE.

Coisas de quem prefere a rotina da exceção ou, na melhor das hipóteses, pretende levar a questão em banho maria, de modo a não desfavorecer A e B. Sobre o desconforto da Corte e a insuspeita divisão ideológica dos ministros, o pior ainda está por vir. Pesquisando a respeito, é fácil concluir que não é só isso. Por enquanto, a ordem é deixar que católicos e evangélicos se engalfinhem nas campanhas eleitorais e, caso sobrevivam, que se convertam em religiões mais pacíficas. Até agora, parte das instruções do STF e todas do TSE lembram Pôncio Pilatos. Conforme as últimas decisões da Corte Eleitoral, o recado é simples: Destilem ódio, mas, por hora, não mexam com Nossa Senhora Aparecida. Embora não seja apolítica, Ela não vota.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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