A dois dias das eleições gerais, já estou me sentindo triste e acabrunhado com o fim do período carnavalesco-eleitoral. Durante 35 dias e noites, candidatas, candidatos, partidos, federações, coligações e mascarados travestidos de políticos expuseram suas fantasias para milhões de brasileiros que, na melhor das hipóteses, conseguiram gravar o número da lei que obriga as emissoras de rádio e televisão a replicar um medonho blá-blá-blá. De volta à programação normal, sou capaz de afirmar que o lero-lero que é ouvido ou assistido nem mesmo por quem o produz.
Diz a Lei no. 9.504/1997 que a propaganda eleitoral serve para divulgar candidaturas, ideias e propostas políticas com o objetivo de conquistar o voto do eleitor. Diz também que a legislação é o principal mecanismo para o eleitor conhecer o currículo, as mensagens e o históricos dos postulantes aos cargos de excelências distritais, estaduais e federais. Baseado na folha corrida de alguns e na ausência de algo palpável, decidi não votar em nenhum dos sujeitos e sujeitas que tomaram o meu tempo com a mesma cantilena de sempre.
O amontoado de frases desconexas e as milhares de promessas inventadas de última hora fizeram arrepiar os pelos das narinas. Fico imaginando onde eles iriam arrumar tantos doentes, estudantes, crianças, criminosos, automóveis e bicicletas para ocupar as centenas de hospitais, escolas, creches, cadeias, rodovias e ciclovias que, ao longo do circo eleitoral, juraram construir. Me cansaram com a conjugação dos verbos jurar, lutar, defender e fazer somente no presente do indicativo.
Sem saber para onde ir, a maioria dos candidatos prometeu mundos e fundos sem conhecimento de causa e, por isso, não deve chegar a lugar algum. Por exemplo, não é atribuição dos deputados distritais, estaduais e federais aprovar ou impichar ministros do Supremo Tribunal Federal. Não era, mas acho que passou a ser após o horário político eleitoral de 2026. Fiscalizar o Sistema Único de Saúde é competência da Câmara Federal e não das assembleias legislativas ou da Câmara Distrital do DF. Faltou alguém mais lúcido informar tudo isso para os russos de língua solta, mas normalmente com o rabo preso.
Nessa quadra que lembra a máxima de que, em casa de cego, quem tem um olho é rei, o problema reside exatamente na tal lucidez política. Quem a tem? Talvez estimulados pela mesmice da política brasileira, os candidatos e as candidatas aos variados tipos de cargos em disputa esqueceram que o povo, também chamado de amado eleitor a cada eleição, se cansou de conversa mole e de papo furado. Já me decidi sobre o voto presidencial. Mesmo assim, me incluo no grupo dos nada interessados na eleição.
Provavelmente, o desinteresse dos meus parceiros brasileiros seja uma resposta à falta de projetos dos candidatos, cuja maioria parece não ter nada a mostrar e muito a esconder. Chega de pão e circo. O povo quer saber o que vai comer, como vai se vestir e onde irá trabalhar no futuro real e não do subjuntivo, aquele que indica uma ação possível, hipotética ou incerta. O gerúndio e o pretérito imperfeito não convencem mais nem os familiares dos postulantes políticos. Como certas coisas só são amargas se a gente as engole, decidi passar adiante o que aprendi com o Velho do Rio a respeito de nossos políticos: 50% deles são falsos e os outros 50% não são 100% confiáveis. A escolha é sua.

