Gilberto Amado desconfiou, já velho, de que a culpa fosse da fome. Seus acessos de fúria coincidiam com a hora de comer, e ele passou a tomar sopa antes de se expor a reuniões capazes de lhe testar a paciência. O embaixador José Sette Câmara, que contou o caso, não sabia se o diagnóstico de hipoglicemia estava certo. Os incidentes, porém, diminuíram. Depois de tanta discussão sobre o Brasil, restava ao escritor negociar com o próprio estômago.
A diplomacia lhe dera muito trabalho, inclusive fora de casa. Nascido em Estância, Sergipe, em 1887, o mais velho de catorze irmãos estudara Farmácia na Bahia e Direito no Recife. Em 1910, chegara ao Rio para trabalhar na imprensa. Viria a ser deputado, senador, professor de Direito e embaixador, além de integrar a Comissão de Direito Internacional da ONU. Atravessou tudo isso sem perder o menino que reparava nas coisas e o adulto que se julgava autorizado a dizer o que pensava delas.
Esse menino está nos cinco volumes de memórias publicados entre 1954 e 1960. Em História da minha infância, o jantar chega à mesa às duas da tarde. O pão tem o cheiro da padaria próxima ao armazém do avô. Colher araçá oferece um pretexto para namorar. A vida cabe em lembranças que uma biografia respeitável poderia dispensar, ocupada demais com diplomas e nomeações. Gilberto teve o bom senso literário de guardar as cocadas.
Guardou também os castigos da escola, as condições precárias da vida de estudante, os costumes políticos. Suas memórias permitem conhecer um país que os discursos oficiais deixavam do lado de fora. Incomodava-o que os críticos elogiassem tanto a maneira de escrever e tão pouco aquilo que escrevia. O homem queria discutir ideias e recebia cumprimentos pela frase. Dá para compreender a irritação, mesmo sem concordar com todos os modos de manifestá-la.
Em Paris, tinha uma afeição particular por uma mocinha. Era como chamava Notre-Dame. Recomendava aos brasileiros que fossem visitá-la, encantado com aquela beleza de pedra. Ribeiro Couto adotou a brincadeira e passou a mandar lembranças para a moçoila nas cartas. À noite, depois do jantar, os dois conversavam diante da catedral. Falavam do Brasil com uma animação que fazia os passantes se virarem. A França fornecia o cenário, mas o assunto continuava brasileiro.
Ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras, em 29 de agosto de 1964, Gilberto Amado homenageou Ribeiro Couto, o amigo a quem sucedia na cadeira 26. Em seu discurso, lembrou o último almoço dos dois em Paris. Couto já não enxergava. Procurava os talheres sobre a toalha, saboreava a comida e falava sem parar. Amado esperou alguma queixa sobre a cegueira. Ela não veio. Na despedida, o amigo acenou na direção errada, sem conseguir vê-lo. Amado chorou. Ao recordar aquela tarde diante dos acadêmicos, deixou um retrato da amizade que nenhuma relação de cargos seria capaz de transmitir.
Há algo comovente nesse homem que, diante de uma catedral europeia, via aparecer a igrejinha sergipana da infância. A distância aumentava o tamanho do que trazia de casa. O diplomata podia cruzar o oceano quantas vezes quisesse. Itaporanga ia junto, com a escola de Sá Limpa, a mãe Donana e o pai Seu Melk. No discurso de posse na Academia, todas essas pessoas entrariam com ele.
Outra lembrança exigiria acomodações menos afetuosas. Em 19 de junho de 1915, Gilberto Amado, aos 28 anos e recém-empossado deputado, matou a tiros o poeta Aníbal Teófilo. Aconteceu ao final da Hora Literária, promovida pela Sociedade Brasileira dos Homens de Letras no Jornal do Commercio, na Avenida Rio Branco. Aníbal havia recitado. Amado assistira da plateia. Os escritores reuniam-se para defender seus interesses profissionais. A festa acabou com um poeta morto.
Pode-se reconstituir o fato a partir do que publicou a imprensa da época: houve uma desfeita no cumprimento, seguida de discussão e luta corporal entre Aníbal e Paulo Hasslocher, amigo de Amado. Vieram então os disparos. Amado sustentaria que sofria ameaças e humilhações anteriores. Bilac, ouvido sobre encontros que presenciara, declarou não ter testemunhado aquelas ofensas. A versão do homem que sobreviveu ao episódio encontrava resistência já entre seus contemporâneos.
Evaristo de Moraes assumiu a defesa. Amado foi absolvido em 1916 e, após recurso da acusação, novamente em 1918. A tese era a privação dos sentidos, admitida pela legislação penal daquele tempo. A carreira prosseguiu, com novos mandatos e missões no exterior. O nome cresceu. Aníbal, autor de Rimas, foi ficando cada vez mais dependente da notícia de sua morte para ser lembrado.
Ao escrever Presença na política, Amado destinou ao episódio o capítulo “Terrível prova”. Explicou por que o retirara da ordem dos acontecimentos: “Quebrei o seguimento cronológico para não abrir o volume com ele”. É uma frase reveladora. O autor podia escolher a porta pela qual o leitor entraria em sua vida. Preferiu recebê-lo por outra.
No relato, apresentou-se como o “rapazinho” que era, um “menino” de sensibilidade excepcional. Tinha 28 anos na ocasião. Segundo Araujo, atravessou o capítulo sem mencionar o nome de Aníbal Teófilo. Lembrava a morte, mas o centro da dor permanecia ocupado por ele próprio. A qualidade da prosa torna a passagem ainda mais incômoda, porque a eloquência pode nos aproximar tanto de quem conta que mal percebemos quem ficou sem voz.
Nem a geração seguinte se livrou dessa disputa. Em 1979, Arnaldo Rodrigues, neto de Aníbal, apresentou à imprensa a pesquisa para uma biografia do avô. O filho de Amado reagiu judicialmente. Defendido por Sobral Pinto, Arnaldo obteve decisão favorável no Supremo em 1982. Ainda assim, desistiu da publicação. O livro ficou pelo caminho.
Talvez seja um escritor que ainda valha a pena ler, com atenção também ao que nos pede que aceitemos. O menino das cocadas, o visitante de Notre-Dame, o amigo que chora e o homem que dispara pertencem à mesma vida, encerrada em 1969. Ao abri-la de novo, podemos acompanhar Gilberto Amado por suas ruas e salas, ouvir suas histórias, rir de sua sopa. Mas, quando chegarmos àquela tarde no Jornal do Commercio, Aníbal Teófilo precisa também estar lá, com o próprio nome.
………………..
Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). @prof.danielmarchi.


Adoro o lado B da literatura.