Deveríamos amar a hipocrisia

Eduardo Martínez
4 minutos de leitura
Texto: Thalita Delgado - Imagem: Francisco Filippino

Ana, com toda a sua genialidade, um dia me disse: “Santa hipocrisia que descobri que tenho! Eu amo ser hipócrita!” Eu fiquei um pouco assustada com a palavra hipocrisia, mas, vindo da Ana, eu sabia que a palavra não era bem a palavra: tinha um quê a mais!

Fato é que Ana é aquariana, desempenha muitas funções e, vira e mexe, quer largar mão das pessoas. Então, somos bem parecidas. Ana não gosta de hipócrita, mas Ana entende que hoje pode amar cerveja sem álcool e amanhã pode simplesmente defender que temos de beber litrões. Ana pode não querer mudar de bairro, nem de cidade, muito menos de país: hoje. Mas amanhã pode ser que ela se levante dizendo aos quatro ventos que quer ir morar na Austrália e que os meninos vão também.

A mente da Ana se reflete em mim, que sigo sendo a inconstância total da imprevisibilidade, porque hoje eu amo, amanhã não quero mais. Hoje quero ter o hábito de jantar todos os dias; amanhã entendo que não quero mais. Hoje quero morar na cidade pequena e nunca mais pisar em São Paulo, mas pode ser que daqui a seis meses eu arrume um trem pra fazer por lá e vá. Hoje quero o vestido branco, o véu e a grinalda; até ontem eu não queria nada.

Sigo sendo isso que as pessoas chamam de “instável” e aí paro dois segundos para refletir sobre a hipocrisia da Ana. Ana não é hipócrita, ela apenas entendeu que não precisamos manter a mesma opinião e o mesmo discurso pro resto dos tempos. É permitido mudar, é permitido experimentar e é permitido trocar. É permitido sentir e viver e não querer, ou então querer mais, ou de novo.

A hipocrisia aqui não é falar sobre seu estilo de vida e praticar coisas diferentes todos os dias. É ter a certeza de que, em algum momento, você disse “nunca vou fazer” e fez.

E quanta beleza há nesse movimento, quanta força há em mudar de ideia, quanta maravilhosidade existe em ser hipócrita 24 horas por dia. Só quem se dá o direito de ser hipócrita sabe quanta liberdade existe embutida em atos que dizemos que nunca faríamos e acabamos fazendo.

Mas por que não conseguimos ver como algo bom essa inconstância entre o que falamos que não íamos fazer e o que fizemos? Não deveríamos tentar perceber que se dar a liberdade de fazer diferente é também um ato de evolução?

Aqueles que resumem suas vidas a não serem hipócritas e vivem em constância devem ser seres tranquilos, de paz, sem questionamentos internos diários. Mas será que estão se permitindo evoluir, mudar, experimentar, buscar o mundo? Não sei. Impossível pra mim responder, porque, afinal, eu sou o poço completo de inconstância.

E hoje, mais do que nunca, parafraseio Ana: “Santa hipocrisia que descobri que tenho, porque eu amo ser hipócrita!”

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Thalita Delgado (@tha_delgado) é professora, jornalista, publicitária e empresária. Também se expressa como crocheteira e escritora. Apaixonada por música, livros e pelas pequenas sensibilidades do cotidiano, lançou, em 2024, seu primeiro livro, Sorrindo e Chorando — porque é isso que a gente faz, pela Editora Autoria.

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