Palco infinito

Eduardo Martínez
3 minutos de leitura
Gilberto Motta - Texto e Foto

Para Natália Thimberg, atriz brasileira.

“Enquanto os pelos dessa deusa tremem ao vento ateu/Ela me conta sem certe tudo que viveu/Que gostava de política em 1966/E hoje dança no frenétic Dancing Days”.

 (Tigresa, Caetano Veloso)

Na coxia, a atriz inspirou o ar dos deuses e entrou no palco. Sob as luzes, aos 95 anos, iniciou a sua despedida da grande cena. O texto escolhido não poderia ser outro: “Um bonde chamado desejo”, de Tennense Willians.  Peça marcante sobre o envelhecimento e a juventude.

“Mesmo depois de tantos anos, a coxia continua sendo o meu útero, o lugar onde sinto-me no limite do salto no trapézio sem rede de proteção. Vou ou não vou? É o meu derradeiro ato de amor, o canto do cisne. VOU!”

Impossível não sentir o mesmo frio na espinha. A vertigem na cabeça girando e o coração aos tropeços que sentiu em 1954,  ao sair da coxia para enfrentar o teatro meio vazio, na estreia da peça “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues.

Outros tempos.  Agora, não.

A coisa é mais profunda após décadas de palco.

Melhor deixar rolar o tempo e a vida na peça Tennessee Williams:

“… a pureza é o traço fundamental daquilo a que chamamos vida…envelhecer não é apenas uma questão psicológica: é física. O que faço com essa relação? Uma velha que ainda acredita no amor?”.

A entrada foi triunfal.

A plateia parou a cena e aplaudiu por cinco minutos.

A “velha senhora” fez o gesto de reverência lentamente, belo; e buscou a concentração de tempos atrás. E assim seguiu até o gran finale do espetáculo.

No camarim, recebeu flores com um bilhete apaixonado:

“Jamais vi uma interpretação tão iluminada como a de hoje”. Você é infinita. Te amo”.

Pouco antes de deixar o teatro, despediu-se de Lola, “a negra”, sua fiel camareira de tantas décadas. Já em casa, abriu a garrafa de vinho do Porto guardada há anos para a ocasião. Tomou um longo e aconchegante gole e exclamou:

“Valeu!…MERDA!”

Na manhã seguinte, esqueceu-se de acordar

e partiu em paz,

para sempre.

…………………..

Gilberto Motta é escritor, poeta, jornalista e pesquisador. Apaixonado pelo teatro, cresceu aprendendo a amar as divas dos palcos, no rádio, depois na TV e no cinema. Vive na Guarda do Embaú, vilarejo de pescadores e turistas no Sul de SC.

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