Guerreiros de sonho

Eduardo Martínez
4 minutos de leitura
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Aproximava-se a hora do duelo. Os guerreiros de sonho começaram a preparar-se.

Os xamãs das tribos em conflito reuniram-se em torno dos dois contendores, invocando os espíritos para favorecer o seu campeão. Ao mesmo tempo, forneciam-lhes meios de acesso mais rápido ao plano dos deuses – na verdade, um patamar acessível a todos que tivessem um mínimo de dotes psíquicos. E ambos, em geral pertencentes a linhagens de sonhadores renomados, tinham imaginação, intuição e outros atributos do psiquismo relativamente desenvolvidos.

Os atalhos para esse plano variavam conforme as tradições da tribo e os ensinamentos dos mentores. Alguns guerreiros comiam cogumelos cuja carne abria as portas da percepção; outros fumavam ervas de poder, e havia quem ingerisse cuias e mais cuias do licor sagrado. Mas isso acontecia poucas vezes, pois era grande o risco de beber em demasia, e o sono leve de um combatente de sonho degenerar no ressonar pesado da embriaguez.

Os motivos para o confronto também variavam. O controle sobre uma fértil área de pastagem, ou de caça e pesca abundante; a descoberta de jazidas minerais em determinado local; por vezes, apenas o flexionar dos músculos, em sentido figurado, de um grupo jovem e agressivo, consciente de sua força e decidido a testar seus limites – pretextos para o enfrentamento jamais faltavam.

O desenrolar do combate era conhecido por todos. Os guerreiros de sonho, já em transe leve, eram conduzidos pelos xamãs da tribo a leitos cobertos por peles, situados em campos opostos do grande salão de combate. Deitavam-se e dormiam. E sonhavam.

Os acompanhantes esperavam, pacientemente, pelas projeções oníricas nas paredes do salão. Algumas enfatizavam a caça, outros, o cultivo de cereais; nas imagens, erguiam-se aldeias ou conservava-se um local praticamente intocado. As figuras sucediam-se com rapidez, representando semanas, meses, anos, e aos poucos ficava evidente qual guerreiro sonhava com iniciativas que aumentavam mais o bem-estar de seu grupo, com o mínimo de inevitável destruição ambiental. Quando todos se convenciam de que um deles desenvolvera, em seus sonhos, as melhores soluções para o coletivo, os dois eram acordados e a tribo do vitorioso recebia o controle da pastagem ou do terreno de caça e pesca abundante, ou do trecho com jazidas minerais.

Certo dia, porém, a tribo soube da aproximação de um grupo desconhecido. Foram enviados representantes para estabelecer contato, mas os embaixadores foram mortos. Quando soube da chacina, a tribo abandonou suas terras tradicionais e se refugiou numa área distante e inóspita. Nela, armas tradicionais foram retomadas, os guerreiros de sonho deixaram de ser admirados como heróis do grupo e todos os meninos e jovens treinavam dia e noite, ansiosos por se destacar no manejo de arcos e flechas, lanças e maças. E todos sonhavam, mas em vigília, com o dia em que abateriam o odiado inimigo que os forçara a fugir e retomariam as terras de seus ancestrais.

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