Dinheiro apostou alto nas urnas; resta saber se o rendimento vai ser real

Redação
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João Zisman - Texto e Imagem

Se você abriu o noticiário econômico na segunda-feira, provavelmente ficou com a impressão de que o mercado acordou, viu o resultado da eleição e resolveu comemorar. A Bolsa subiu 7,7% num único dia, o dólar caiu mais de 4%, os juros recuaram e uma quantidade enorme de dinheiro mudou de posição em poucas horas. Só e essa história não começou na segunda-feira e, para mim, é justamente aí que ela fica mais interessante.

Antes da eleição eu vinha acompanhando a Polymarket, uma plataforma internacional na qual as pessoas colocam dinheiro naquilo que acreditam que vai acontecer. Não vou transformar isso numa aula sobre mercado de previsão porque a lógica é bastante simples: em vez de perguntar em quem alguém pretende votar, como faz uma pesquisa, a plataforma mostra quanto dinheiro está sendo colocado na possibilidade de determinado candidato vencer. Antes de as urnas abrirem, Flávio Bolsonaro aparecia ali com uma força que chamava atenção justamente porque destoava do ambiente produzido por boa parte das pesquisas brasileiras.

Uma conta em particular me chamou a atenção. O investidor havia colocado cerca de US$ 5 milhões na vitória de Flávio Bolsonaro. Cinco milhões de dólares não tornam ninguém mais inteligente, evidentemente, e muito menos fazem uma previsão virar verdade, mas convenhamos que existe alguma diferença entre dizer numa roda de conversa “acho que Fulano vai ganhar” e colocar uma pequena fortuna na mesa para sustentar a mesma opinião.

Guarde esse investidor por um instante porque ele ajuda a entender o que aconteceu depois.

No domingo, Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, Lula ficou com 45,16% e a diferença passou de 2,2 milhões de votos. Ninguém foi eleito presidente, mas a urna entregou uma informação nova e bastante diferente daquela com a qual muita gente havia entrado no fim de semana. Quando a segunda-feira começou, o que aquele investidor vinha fazendo sozinho, guardadas evidentemente todas as proporções, passou a acontecer em escala gigantesca no mercado financeiro.

Foi aí que a Bolsa disparou, o dólar caiu, os juros futuros recuaram e ações de bancos, varejistas e empresas mais dependentes da economia brasileira tiveram valorizações expressivas. Não porque milhares de gestores tenham se tornado bolsonaristas durante a madrugada, nem porque tenham recebido alguma informação secreta sobre o futuro do país. Eles simplesmente refizeram suas contas.

E nessas contas entrou mais coisa do que a vantagem de Flávio no primeiro turno. O Congresso que saiu das urnas também está mais à direita, com o PL elegendo 121 deputados federais e chegando a 28 senadores, enquanto partidos de centro e centro-direita continuarão ocupando uma parcela enorme das duas Casas. Para quem administra bilhões e precisa imaginar como estarão dívida, impostos, gastos públicos, juros e reformas daqui a alguns anos, saber quem ocupará o Planalto importa muito, mas saber com qual Congresso essa pessoa governará pode importar tanto quanto.

É por isso que não gosto muito da frase pronta de que “o mercado comemorou Flávio Bolsonaro”. Ela simplifica uma conta bem mais complicada e ainda atribui ao mercado uma espécie de sentimento coletivo que ele não tem. O que houve foi uma mudança brusca na percepção de risco e oportunidade, acompanhada por gente tentando comprar antes que os preços subissem mais, vender antes que caíssem ou simplesmente proteger o dinheiro que administra.

Também não vejo razão para transformar a segunda-feira numa prova antecipada de que um eventual governo Flávio seria economicamente melhor. Aí já estaríamos pedindo demais a uma tela de computador. O programa econômico do candidato continua pouco detalhado, algumas promessas de redução de despesas ainda precisam encontrar números que as sustentem e ninguém sabe como funcionaria, na prática, a relação de um novo governo com um Congresso fortalecido e cheio de interesses próprios.

Talvez seja esse o ponto em que aquela aposta de US$ 5 milhões e a disparada da Bolsa finalmente se encontram. Nos dois casos há dinheiro tentando chegar antes do fato, calculando probabilidades e assumindo risco para ganhar caso a leitura esteja correta. A diferença é de tamanho, sofisticação e instrumento, mas a lógica básica permanece parecida: quem espera ter certeza normalmente chega depois que o preço já mudou.

Isso também ajuda a entender por que não faz sentido colocar Polymarket e pesquisas eleitorais numa disputa para saber quem “acertou”. Elas não fazem a mesma pergunta. Pesquisa procura saber como o eleitor está se posicionando naquele momento; um mercado de previsão tenta colocar preço no resultado que seus participantes acreditam que acontecerá mais adiante. As duas coisas podem oferecer sinais interessantes e as duas podem errar, às vezes feio.

O que me interessa nessa história, portanto, não é descobrir se um apostador estrangeiro enxergou o Brasil melhor do que os institutos brasileiros, mas perceber que havia sinais circulando por lugares aos quais normalmente prestamos pouca atenção. Enquanto discutíamos décimos, margens de erro e diferenças entre levantamentos, havia gente fazendo outra conta e colocando dinheiro nela. A urna mostrou que essa conta não era absurda, embora ainda esteja muito longe de dizer como terminará a eleição ou, principalmente, o que viria depois dela.

Talvez por formação de economista eu tenha curiosidade por esses movimentos, porque o dinheiro costuma falar antes de explicar por que está falando. Mas também aprendi a desconfiar quando tentam transformar a reação do mercado numa espécie de julgamento superior sobre política. Bolsa em alta não é aplauso moral, dólar em queda não é voto e investidor estrangeiro não conhece o Brasil melhor do que quem vive aqui apenas porque movimenta alguns milhões de dólares.

O mercado fez o que se espera dele: recebeu uma informação, refez as contas e correu para tentar ganhar dinheiro antes dos outros. Vale prestar atenção nisso porque há informação nesse movimento e seria bobagem ignorá-la. O exagero começa quando passamos a imaginar que, além de calcular preço e risco, o mercado também sabe qual país devemos querer.

Eu, pelo menos, não entregaria a ele esse poder.

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