Cuidar de si não significa deixar de cuidar dos outros. Muitas vezes, significa perceber que você também precisa fazer parte das suas próprias escolhas.
Você já percebeu como é fácil encontrar tempo para resolver o problema de outra pessoa, mas tão difícil reservar esse mesmo cuidado para si?
Há pessoas que passam boa parte da vida tentando atender às expectativas de quem está ao redor. Dizem sim quando gostariam de dizer não, assumem responsabilidades que poderiam ser divididas, evitam conflitos, deixam seus planos para depois e continuam em situações que já não lhes fazem bem porque têm medo de decepcionar alguém. Aos poucos, aquilo que parecia apenas uma forma de ser prestativa pode se transformar em um padrão: todos são considerados, menos ela mesma.
Isso nem sempre acontece porque a pessoa não se valoriza. Muitas vezes, existe uma história por trás dessa dificuldade de se priorizar. Algumas pessoas aprenderam muito cedo que precisavam agradar para serem aceitas. Outras descobriram que cuidar dos outros era uma maneira de se sentirem necessárias ou de manter a harmonia dentro de casa. Há também quem tenha aprendido a ser forte, independente e a não demonstrar necessidades.
Essas experiências podem ensinar maneiras de se proteger e de se relacionar. O problema aparece quando aquilo que um dia ajudou a pessoa a se adaptar continua funcionando automaticamente, mesmo quando a realidade já mudou.
É possível saber racionalmente que deveria estabelecer limites e, ainda assim, sentir culpa quando tenta dizer não. É possível reconhecer que determinada relação não faz bem e continuar nela por medo de ficar sozinho. É possível perceber o próprio cansaço e, mesmo assim, assumir mais uma responsabilidade porque parece impossível frustrar alguém.
Por isso, se priorizar não é simplesmente decidir colocar-se em primeiro lugar de uma hora para outra. Existe uma diferença entre compreender que algo precisa mudar e conseguir agir de maneira diferente. Para algumas pessoas, essa mudança exige olhar para a própria história e entender o que existe por trás da necessidade constante de agradar, controlar, cuidar ou suportar.
Uma pergunta pode ajudar nesse processo: em quais situações da sua vida você tem deixado suas próprias necessidades de lado por medo do que o outro vai pensar, sentir ou fazer?
A resposta pode revelar padrões que passam despercebidos no cotidiano.
Começar a se priorizar pode significar observar antes de responder automaticamente, perceber quando um “sim” está vindo acompanhado de ressentimento, reconhecer os próprios limites e aceitar que nem toda necessidade do outro precisa se transformar em uma responsabilidade sua. Também significa compreender que estabelecer limites não é punir ninguém, assim como cuidar de si não é abandonar quem você ama.
Existe, porém, uma parte de responsabilidade nesse processo. Não somos culpados pelos aprendizados que construímos ao longo da vida, mas podemos começar a perceber quando eles já não estão nos servindo. Enquanto esperamos que os outros descubram aquilo que precisamos, podemos continuar ocupando o mesmo lugar. Por isso, aprender a se posicionar também envolve comunicar, escolher e sustentar novas atitudes.
Nem sempre será confortável. Algumas pessoas podem estranhar quando você começar a dizer não, principalmente se estavam acostumadas com a sua disponibilidade constante. Isso não significa que você esteja fazendo algo errado. Às vezes, significa apenas que uma dinâmica antiga está mudando.
A terapia pode ajudar justamente nesse aprofundamento. Perceber o padrão é um começo, mas compreender sua origem, reconhecer as crenças e experiências que o sustentam e construir novas formas de responder às situações pode exigir um processo de investigação mais cuidadoso. Não para apagar a história, mas para que ela deixe de determinar automaticamente as escolhas do presente.
Autoamor, então, deixa de ser apenas uma palavra bonita e passa a aparecer nas pequenas decisões da vida: no limite que você estabelece, no descanso que se permite, na relação que escolhe manter, na responsabilidade que decide não carregar e na coragem de reconhecer que suas necessidades também importam.
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Marina Dutra – Terapeuta Integrativa
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