O Brasil que saiu das urnas em 2026 comprova todas as teses relativas à era do empobrecimento de nossa política. No mundo das redes sociais, muito mais importante do que a capacidade dos candidatos, os discursos de união e os projetos de governo é o quantitativo de likes e a forma com eles são apresentados ao eleitorado pelos influenciadores. Pior só quando os influenciadores são os próprios candidatos. É a mudança de estilo da política brasileira.
Nas eleições deste ano, os chamados “políticos influencers” e criadores de conteúdo substituíram parte das tradicionais celebridades e conquistaram votações expressivas para os legislativos federal, estadual e distrital. Entre outros, os likes reelegeram Nikolas Ferreira (PL-MG) e elegeram os influenciadores Lucas Pavanato (PL-SP) e Ana Elisa (PT-MG), eleita com uma das maiores votações para deputada federal em Minas Gerais, somando mais de 500 mil votos.
Ficaram de fora o humorista Tiririca, os apresentadores Silvia Abravanel e José Luiz Datena, além do caneta azul Manoel Gomes. Vem daí minha decepcionante desilusão com a política e, sobretudo, com os políticos? Não! Embora ela tenha aflorado agora com o Congresso Nacional e as assembleias legislativas se transformado em um vespeiro, em uma florada de ervas daninhas, faz tempo que o oportunismo e o capacitismo pessoal ocuparam o lugar do trabalho em benefício do povo.
Paralelamente às “personalidades digitais”, profetas, salvadores da pátria e corruptores de mentes incapazes de discernir entre a verdade, a mentira e o blefe se apossaram das casas do povo e delas não querem mais arredar pé. Isso quer dizer que o empobrecimento político dessas duas ou três últimas décadas dificilmente será revertido. É daí para pior. Bem pior.
Como os políticos de hoje têm pouca coisa para falar e nada para apresentar, resta-lhes a exposição nas redes sociais, onde qualquer besteira vira manchete diante dos olhos incrédulos e das mentes vazias de boa parte do eleitorado brasileiro. Basta uma pincelada de olhos na Câmara e no Senado que emergiram das urnas para perceber que o Congresso Nacional perdeu e não consegue recuperar sua memória institucional.
De esquerda, de direita ou de centro, o foco da maioria dos parlamentares são as emendas orçamentárias em detrimento de debates programáticos de médio e longo prazo. Como o Brasil se transformou em uma nação imediatista, naturalmente a atuação política passou a priorizar a entrega de recursos locais e a popularidade imediata de deputados e senadores, enfraquecendo a consolidação de partidos com identidades históricas ou projetos nacionais estruturados. Ou seja, salve-se quem puder a partir de fevereiro de 2027.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

