Tem coisa na política que nem o mais criativo dos humoristas conseguiria inventar, porque a realidade, quando resolve debochar da inteligência humana, não costuma economizar no ridículo. O Distrito Federal acaba de oferecer um desses espetáculos, com uma campanha que tinha praticamente tudo para terminar no primeiro turno, mas tropeçou em dois algarismos e acabou condenada a passar mais três semanas tentando explicar ao eleitor aquilo que deveria ter ensinado desde o começo.
A governadora ficou com 49,93% dos votos válidos, a um fiapo de liquidar a fatura, enquanto nada menos que 26.603 eleitores resolveram digitar 22 para governador, número de um partido aliado que sequer tinha candidato ao cargo. Uma bela coleção de votos nulos e uma demonstração constrangedora de que, em matéria de comunicação eleitoral, é perfeitamente possível gastar uma fortuna com grandes estratégias e esquecer o bê-á-bá.
O número da governadora era 11, mas o 22 circulava com desenvoltura pela campanha, embalado pela identificação política com as duas candidatas ao Senado que acabaram eleitas. A associação era legítima, conveniente e eleitoralmente compreensível, só que alguém parece ter esquecido um detalhe de simplicidade quase ofensiva: na urna, simpatia por aliado não substitui o número do candidato.
Evidentemente, ninguém pode garantir que aqueles 26 mil votos seriam destinados à governadora, porque urna eletrônica registra números, não pensamentos. Mas é preciso uma dose cavalar de boa vontade para olhar aquela quantidade de patinhos e não enxergar um monumental problema de comunicação, especialmente quando uma diferença tão pequena separou a candidata da vitória no primeiro turno.
Aliás, o famoso 22, conhecido como dois patinhos na lagoa, também lembra o pato das mesas de jogo, aquele sujeito que chega cheio de confiança, não entende direito o que está acontecendo e termina pagando a rodada. Pois parece que os patos estavam justamente onde se esperava encontrar gente capaz de ensinar os outros a jogar, com a diferença de que, nessa partida, quem ficou com o prejuízo foi a própria candidata.
O segundo turno começou com uma insistência quase pedagógica no número 11, agora repetido com a aplicação de quem descobriu, depois da prova, qual era a matéria que deveria ter estudado. Uma correção necessária, embora seja de imaginar o esforço intelectual para apresentar a mudança como extraordinária inovação estratégica, quando bastava ter feito o dever de casa.
E quem paga essa conta? A governadora, obrigada a dividir sua atenção entre administrar uma cidade cheia de problemas e voltar à campanha; a população, já cansada de tanta disputa política e novamente submetida à propaganda eleitoral; e a própria máquina partidária, mobilizada por mais vinte dias para conquistar aquilo que esteve tão perto de ser resolvido.
Campanhas adoram falar em inteligência, planejamento, posicionamento, estratégia digital e outras expressões que emprestam ares científicos ao trabalho de pedir votos. O problema é que, às vezes, por trás de tanta sofisticação, falta alguém com a lucidez necessária para perceber que o eleitor precisa saber, antes de qualquer coisa, quais teclas deve apertar.
Talvez a eleição termine bem para a governadora, mas nem uma eventual vitória apagará a trapalhada, porque a política pode até perdoar o erro, mas não devolve o tempo, o desgaste e o dinheiro consumidos por ele. Quanto aos gênios da comunicação, seria prudente que, antes de apresentarem a próxima estratégia revolucionária, aprendessem a contar até onze, porque, pelo visto, conseguiram a proeza de transformar dois inocentes patinhos numa confusão do tamanho do Lago Paranoá.

