Eleitor brasileiro é inimigo do próprio povo

Redação
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Sonja Tavares - Foto Lula Marques

Marcado por momentos de interrupção e autoritarismo, o Congresso brasileiro já foi fechado 18 vezes ao longo da história, incluindo períodos no Império, na Era Vargas e na Ditadura Militar. Sua reconstrução democrática começou com a Constituição de 1988. Foi a época de líderes com a estatura, a convicção e a experiência de Ulysses Guimarães, Paulo Brossard, Jarbas Passarinho, Fernando Henrique Cardoso, Leonel Brizola. Roberto Cardoso Alves, Marco Maciel, Antônio Carlos Magalhães, José Sarney, Franco Montoro, entre dezenas de outros.

Pelos nomes, é fácil perceber que a linha ideológica não interferia no desejo convergente de se pensar positivamente no país. Passadas quase quatro décadas, a percepção de qualquer cidadão com um mínimo de inteligência é de contínuo desgaste e crescente fisiologismo da Câmara e do Senado, cuja renovação conservadora a cada legislatura confirma a famosa frase de Ulysses Guimarães sobre a qualidade do Congresso: “Se você acha esse Congresso ruim, espere o próximo”.

Quem viveu e vota desde os anos 1980 não tem dúvida da afirmação. Quanto aos que votaram em 2018 e 2022, a dúvida é ainda menor. Hoje, 77% dos eleitores avaliam o Legislativo federal como regular, ruim ou péssimo. Apenas 18% acham as duas casas do Congresso boas ou ótimas. Triste realidade, mas são os mesmos “críticos” que novamente votaram para consolidar o conservadorismo, o “emendedorismo” e a falta de apego dos parlamentares ao que deixou de ser o bem maior de todos os políticos: os eleitores.

Portanto, o resultado da soma não poderia ser outro: só temos deputados e senadores ruins porque, na outra ponta, os eleitores têm o mesmo perfil e a mesma história. Daí, não há o que reclamar, tampouco adjetivar o Congresso eleito em 2022 de “inimigo do povo”. Os nomes anunciados pela Justiça Eleitoral como vencedores do pleito de 2026 é a prova incontestável de que o verdadeiro inimigo do povo é o próprio povo, cuja sabedoria se extingue no último clique Confirma na urna eletrônica.

Salvo algumas raras cabeças pensantes, mas entregues ao sonho de poder eterno, realmente o Congresso Nacional que já foi de Ulysses Guimarães nunca teve nível tão baixo como tem agora. Nada de tão estranho para um eleitorado que certamente não se lembra mais em quem votou nas eleições deste ano. Célebre e certeira, a frase do Senhor Diretas Já pode ser considerada como um péssimo sinal para o Congresso de 2026. Desde já, ele concorre para ser o pior dos piores desde a redemocratização.

Referendado pela maioria dos quase 160 milhões de eleitores, o Brasil terá de conviver, de fevereiro de 2027 até fevereiro de 2030, com o atraso, a ignorância e a intolerância de expressiva parcela dos parlamentares. Acabou o tempo do homem público ser identificado como cidadão de tempo inteiro em favor da não. O verbo servir evoluiu para sua versão pronominal se servir, que significa fazer uso de algo que não é seu. O que posso dizer contra mim e contra os que votaram naqueles que pensam no país é que o “outro” assumiu seu destino. O problema é que levaram todos para o buraco.

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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras

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