Flávio rasga bandeira de Lula e abraça fim da 6×1 como batalha eleitoral

Redação
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Marta Nobre - Foto Fábio Rodrigues Pozzebom

A disputa pelo Palácio do Planalto ganhou nesta quarta-feira, 14, um novo campo de batalha. E, desta vez, não envolve diretamente inflação, segurança pública ou os tradicionais embates ideológicos entre direita e esquerda. O confronto chegou ao relógio de ponto de milhões de brasileiros. O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, decidiu apoiar o fim da escala de trabalho 6×1, apropriando-se de uma bandeira eleitoral que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pretendia apresentar como uma das vitrines de sua campanha à reeleição.

A mudança de posição do parlamentar ocorre justamente quando o Senado se prepara para avançar na análise da proposta de emenda à Constituição que prevê o fim do modelo de seis dias de trabalho para um de descanso. Nesta quarta-feira, está prevista a quinta sessão de discussão da PEC, etapa que poderá abrir caminho para sua votação em primeiro turno.

O movimento de Flávio tem evidente significado eleitoral. Ao aderir à proposta, o candidato do PL procura neutralizar um discurso de forte apelo popular, tradicionalmente associado à esquerda e ao movimento sindical. Mais do que disputar votos, tenta retirar das mãos de Lula a exclusividade de uma bandeira capaz de sensibilizar trabalhadores de diferentes classes sociais.

É como se, no tabuleiro político, Flávio tivesse decidido avançar sobre uma peça que o adversário considerava protegida. O petista apostava na redução da jornada como instrumento de aproximação com o eleitorado assalariado. O bolsonarista, por sua vez, sinaliza que não pretende entregar essa parcela do eleitorado sem resistência.

A escala 6×1 tornou-se símbolo de uma discussão que ultrapassa os limites das relações trabalhistas. Para seus defensores, a mudança representa a possibilidade de ampliar o tempo de convivência familiar, descanso, qualificação profissional e lazer. Para setores empresariais, entretanto, a alteração exige cautela diante dos possíveis impactos sobre custos operacionais, produtividade e manutenção dos empregos. É precisamente nesse encontro de interesses que a política encontrou terreno fértil.

Lula procura associar sua candidatura à ampliação de direitos sociais. Flávio, ao apoiar a proposta, tenta demonstrar que a defesa de melhores condições de trabalho não precisa ser monopólio do PT ou das organizações sindicais. A estratégia também dialoga com uma característica da eleição presidencial de 2026: a necessidade de conquistar votos fora dos grupos tradicionalmente identificados com cada candidatura. Em uma disputa polarizada, conquistar eleitores moderados ou reduzir a rejeição pode ser tão importante quanto mobilizar as próprias bases.

Ao mudar de posição, Flávio assume o risco de contrariar segmentos empresariais mais resistentes à redução da jornada. Em contrapartida, busca ampliar sua presença entre trabalhadores do comércio, serviços e outras atividades nas quais o regime 6×1 é frequente. A reviravolta ficou evidente na terça-feira, 13, quando Flávio anunciou seu voto favorável após visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro. “Estou rodando o Brasil, e a maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da 6 por 1. Então, vou votar a favor do fim da 6 por 1”, declarou o senador.

Até poucos dias antes, Flávio criticava a iniciativa e acusava Lula de oportunismo eleitoral. Sua preferência era por um modelo de jornada flexível, negociado entre empregadores e empregados. Agora, embora mantenha ressalvas sobre os custos da medida, reconhece a força da reivindicação popular. O presidenciável também defendeu que o governo federal compense eventuais despesas adicionais das empresas. Não apresentou, porém, um mecanismo detalhado para financiar essa compensação.

A mudança não significa, necessariamente, uma adesão integral à política trabalhista defendida pelo PT. Segundo informações publicadas pela imprensa, Flávio sinalizou a aliados que pretende rever aspectos da legislação caso seja eleito, especialmente para ampliar a flexibilidade nas relações de trabalho.

A PEC 221/2019, apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), já foi aprovada pela Câmara dos Deputados. No Senado, a proposta é relatada por Omar Aziz (PSD-AM). O texto estabelece a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso remunerado, um deles preferencialmente aos domingos, sem diminuição salarial.

A implementação seria gradual: inicialmente, a jornada cairia para 42 horas semanais, dois meses após a publicação da emenda. Posteriormente, chegaria às 40 horas, um ano e dois meses depois da promulgação. A líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), informou ter reunido 56 assinaturas para um requerimento destinado a acelerar a tramitação. Se aprovado, o procedimento poderá permitir que os dois turnos de votação ocorram nesta quarta-feira. São necessários pelo menos 49 votos favoráveis em cada turno. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), já manifestou apoio à discussão da mudança, destacando seu impacto na vida dos trabalhadores.

A movimentação governista revela que a disputa não termina com a contagem dos votos no Senado. Lula avalia comparecer pessoalmente à Casa após a votação, numa tentativa de associar sua imagem à aprovação da medida. A campanha petista também utiliza a propaganda eleitoral para apresentar o fim da escala 6×1 como uma conquista vinculada ao presidente. Mas Flávio introduziu um elemento novo nessa narrativa. Se o projeto for aprovado com votos de parlamentares governistas e oposicionistas, a conquista poderá ser apresentada como resultado de um entendimento mais amplo, enfraquecendo a tentativa de atribuir seus méritos exclusivamente ao Palácio do Planalto.

O apoio popular ajuda a explicar a mudança. Levantamentos do Datafolha e da Quaest indicaram que aproximadamente sete em cada dez brasileiros defendem o fim da escala 6×1. Trata-se, portanto, de uma pauta capaz de atravessar fronteiras partidárias.

A adesão de Flávio à proposta não elimina as diferenças entre os dois candidatos. Lula defende a redução da jornada como ampliação de direitos, enquanto o senador do PL insiste na necessidade de preservar a atividade econômica e oferecer mecanismos de compensação às empresas.

As entidades empresariais, entre elas a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Confederação Nacional do Comércio (CNC), manifestam preocupações com o aumento de custos, os possíveis reflexos sobre preços e os impactos na geração de empregos. Essas questões deverão permanecer no debate mesmo que o Congresso aprove a alteração constitucional.

A praticamente 10 dias do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro, a escala 6×1 deixou de ser apenas uma discussão sobre direitos trabalhistas para se transformar em instrumento de disputa pelo eleitorado. Lula quer colher os frutos de uma bandeira que ajudou a impulsionar. Flávio procura demonstrar que também pode defender a reivindicação, ainda que por caminhos econômicos diferentes.

No fundo, os dois candidatos disputam algo maior do que a autoria política da proposta: o reconhecimento de milhões de brasileiros que trabalham seis dias para descansar apenas um. A ironia é que uma reivindicação nascida da necessidade de ampliar o tempo livre dos trabalhadores passou a ocupar praticamente todo o tempo dos estrategistas eleitorais. Lula levantou a bandeira. Flávio decidiu segurá-la também. Agora, resta saber quem receberá os aplausos quando ela for hasteada — e, principalmente, quem conseguirá transformar a promessa em realidade.

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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras

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