Mestre dos mestres, Millôr Fernandes, jornalista e cartunista de ontem, de hoje e de sempre, disse em vida que, quando o assunto é ciência, devemos priorizar os livros mais novos. Se a busca for pela literatura, a recomendação são os mais velhos. Sobre política e políticos, escolha os bem antigos. Se puder, opte pelos encontrados em sebos ou nos arquivos mortos das livrarias. Apesar de empoeirados, eles contam boas histórias, mas assustam e incomodam bem menos.
O mais relevante é que essas obras não escondem que historicamente a política é a arte de captar em proveito próprio a paixão dos outros. De um século para outro, principalmente de décadas passadas para as atuais, o que mudou foi a evolução da capacidade humana em se reinventar como condutores dos negócios públicos para proveito particular. Vem daí a máxima adaptada de mais uma pérola de Millôr: “Em política nada se perde e nada se transforma, mas tudo se corrompe”.
Sem o mesmo ímpeto intelectual, mas com idêntico entusiasmo e euforia, diria que atualmente em política nada é desprezível. Como sou antigo, naturalmente prefiro a política à moda antiga. Os de hoje devem achar tudo igual, mas era diferente. O termo serve para descrever um estilo de fazer política baseado em práticas tradicionais, contato pessoal e acordos diretos, muitas vezes em oposição à dinâmica moderna das redes sociais e da polarização digital.
Lembro com nitidez as “águias” de meus primeiros passos na cobertura política. Os acordos costumavam ser firmados pela palavra empenhada e pelo cumprimento de compromissos de confiança entre lideranças. Era aquela velha história do fio do bigode. Nas campanhas, candidatos ricos, pobres, eloquentes ou não “colavam” nos presidenciáveis, mas valorizavam o chamado corpo a corpo, o aperto de mão, as conversas presenciais e a construção de laços diretos com eleitores e aliados.
Fossem de esquerda, de direita ou de centro, depois de eleitos o mais comum era trabalhar pela governabilidade, sem negligenciar da estratégica distribuição de cargos e apoios políticos capazes de consolidar a base de sustentação do presidente da República. Nunca estivemos distantes dos oportunistas. Entretanto, na maioria dos eleitores mais antigos era crítico à necessidade de espetacularização constante dos candidatos, aos discursos performáticos e mais ainda aos embates voltados para engajamento em redes sociais.
Em resumo, tínhamos (e temos) aversão à “lacração” digital da política nacional. A exemplo de milhões de eleitores, me identifico com os “velhos políticos” por duas razões bastante óbvias: a coragem diante de duros enfrentamentos e a ojeriza pelas redes sociais como esconderijo de medrosos. Com base nesses irrefutáveis argumentos, realmente não há nada mais inútil do que discutir política com os políticos de 2018, de 2022 e, principalmente, com os de 2026.
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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

