Políticos passam, mas idade avança fincando mais as raízes da experiência

Redação
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Wenceslau Araújo - Foto Editoria de Artes/IA

Enquanto os adolescentes do fim dos anos 60 se reuniam na Rua da Consolação para idolatrar os mitos das jovens tardes de domingo da Jovem Guarda, a meninada de Belo Horizonte escolhia as matinês melosas da Praça Sete e a gauchada preferia o pôr do sol às margens do Guaíba. Mais espevitado e muito menos preocupado com as sandices da extrema-direita travestida de ditadura ou com as idas e vindas da esquerda, eu procurava as prazerosas tardes de sábado na Rua Pinto de Azevedo, no coração avermelhado do Rio de janeiro. Era ali que os da minha idade não tiravam o olho do lance produzido pelas moçoilas locais.

Foi ali que também aprendi que a porcaria do gelo é ruim para tudo. Proibida de beber em locais públicos, a juventude de então cresceu sob dogmas dos mais diversos envolvendo as pedras d’água. Por exemplo, diziam que Vodka com gelo era ruim para os rins, Rum com gelo acabava com o fígado, Gim com gelo prejudicava os neurônios e whisky com gelo mudava os batimentos do coração. Ou seja, além de derreter e aumentar os níveis dos oceanos, me ensinaram que o gelo não serve para nada. Ledo engano. Mais velho, descobri que é o melhor remédio para inflamações, lesões mais agudas e, pasmem, para amenizar os efeitos de overdoses do milagroso Viagra.

Está escrito no livrinho de cabeceira de página única que mergulhar o biscoito em um balde de gelo é o medicamento mais eficaz para apagar o eventual viciado fogo do espeto de idosos. O problema é a recorrência. Insistir com a empreitada gelada é perigoso, pois, dizem alguns especialistas em paumolescência que a iniciativa acaba em aumento da brochura, comumente seguida pela perda irrecuperável da autoestima. É uma situação que um dia será vivida por todos os homens vivos. O fato é que, pior do que letra morta, a ereção de velho pode, às vezes, parecer uma antena de wi-fi. O problema é igual a toda rede mequetrefe: o sinal cai quando entra no túnel.

Do alto de minha sinceridade mentirosa, não tenho queixas do meu desempenho como macho alfa. Pelo contrário. Só tenho medo do malefício brochante dos políticos. Eles são minha maior preocupação. Clássico e não velho, ultimamente mais pareço um daqueles chuveiros Lorenzetti muito usados: não ligo mais e, quando ligo, não esquento. Estou começando a achar que minha metade da laranja já virou suco. Os sinais nabucodonosorianos, aristotélicos e estrogonóficos se perderam nos temporais da perdição mental e hoje não incomodam sequer os mosquitos da dengue e da chikungunya. O que fazer se até a uva passa.

Mesmo longe dos meus melhores dias, uso a velhice para me transformar em uma fera na cama. Para exacerbar o ódio diário da patroa, urino nos quatro cantos do catre para marcar território. Crio caso, mas é o momento em que busco respostas para o peso de tudo o que não fiz. Onde fracassei? Por que as velas estão custando mais caro do que meu bolo? E por que as meninas da Pinto de Azevedo não me consultaram antes de se instalarem na Vila Mimosa? De que me adianta ser uma biblioteca viva se os livros são todos de brochura?

Como consolo, o que posso dizer aos jovens é que só se tem conhecimento da velhice chegando-se a ela. Valho-me sempre dos ensinamentos de Simone de Beauvoir para lembrar que a velhice é a paródia da vida. Como definiu Voltaire, sou uma grande árvore, já sem folhas e frutos, mas ainda presa à terra. Menos idoso e mais vintage, o que peço aos netos é paciência e informação. O mínimo que eles podem fazer por nós é nos escandalizar e nos manter informados acerca das maldades femininas e dos políticos metidos à macho. Picardias à parte, sou antigo, mas deixei de ser velho no dia em que parei de só pensar na idade.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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