Flávio traduz Daniella; ensina pobre a pescar e acaba com curral eleitoral

Redação
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João Zisman - Foto Paulo Pinto

Daniella Marques conseguiu colocar Flávio Bolsonaro numa situação que nenhum candidato gostaria de enfrentar a menos de uma semana da eleição. Não anunciou o fim do Bolsa Família nem defendeu um corte indiscriminado, mas bastou uma entrevista à CBN Bahia para entregar à campanha de Lula um assunto que dificilmente sairá da disputa até domingo.

E o pior: Flávio, que precisava aproveitar cada minuto para conquistar votos, agora também terá de explicar aquilo que sua coordenadora econômica tentou explicar e não conseguiu comunicar sem provocar uma controvérsia.

Daniella não é uma aventureira nem alguém despreparada. Foi presidente da Caixa Econômica Federal, conhece a área econômica e tem credenciais para participar de um programa de governo. O problema é que uma campanha presidencial não é uma reunião de economistas. Na reta final, sobretudo numa eleição disputada voto a voto, a preparação técnica precisa estar afinada com a inteligência política. Uma palavra fora do lugar pode produzir um problema maior do que a proposta original.

Foi o que aconteceu. Daniella falou numa regra de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família que consigam emprego ou decidam abrir um negócio, com possibilidade de retorno ao programa caso a experiência não dê certo. Há uma explicação para isso, e mecanismos semelhantes já existem na política de assistência social. Mas o eleitor dificilmente receberá a proposta com todas as condições, exceções e esclarecimentos posteriores.

A campanha de Lula já explora a declaração como uma ameaça de corte no Bolsa Família, interpretação contestada por Flávio e pela própria Daniella. A frase simples circula com muito mais facilidade do que uma explicação cheia de detalhes. O eleitor não precisa ser ingênuo para se preocupar com o futuro de um benefício importante para o orçamento familiar, nem acompanhar a entrevista inteira para tomar conhecimento da controvérsia nas redes sociais.

A política brasileira conhece bem esse tipo de problema. Em 2022, Roberto Jefferson recebeu policiais federais a tiros e granadas, enquanto Carla Zambelli, na véspera do segundo turno, perseguiu um homem pelas ruas de São Paulo com uma arma. Foram episódios diferentes e muito mais graves, mas ambos criaram dificuldades para Jair Bolsonaro num momento em que qualquer desgaste era indesejável.

Daniella não fez nada comparável. Ainda assim, abriu uma controvérsia num terreno especialmente sensível: o bolso de milhões de brasileiros. A questão deixou de ser apenas o que ela pretendia dizer e passou a incluir aquilo que os adversários conseguem fazer circular a partir de suas palavras.

As pesquisas ajudam a explicar a dimensão do problema. O levantamento BTG/Nexus divulgado nesta segunda-feira mostrou Flávio com 50,3% dos votos válidos e Lula com 49,7%, diferença de apenas seis décimos, dentro da margem de erro. Numa disputa assim, qualquer acontecimento que domine o noticiário merece atenção.

Há ainda o fator tempo. O horário eleitoral termina na sexta-feira, restando poucos dias para Flávio apresentar propostas e desfazer a interpretação que ganhou força depois da entrevista. Mesmo que os esclarecimentos sejam convincentes, terão de disputar espaço com a versão já disseminada. Lula pode explorar a controvérsia; Flávio precisa explicar por que ela não corresponde ao seu programa.

É como tentar embrulhar um berimbau: por mais boa vontade que exista, sempre sobra uma ponta, uma corda ou uma parte difícil de esconder. Daniella foi à rádio para apresentar um pacote econômico e acabou entregando à campanha adversária um embrulho político difícil de desfazer.

O estrago, portanto, já está feito, embora seu tamanho eleitoral ainda seja desconhecido. Não se trata de condenar Daniella nem de questionar sua capacidade técnica, mas de reconhecer que uma campanha presidencial exige cuidado permanente com o que se fala, como se fala e, sobretudo, quando se fala.

Seria precipitado afirmar que a declaração decidirá a eleição. Também seria precipitado dizer que os esclarecimentos encerraram o assunto. O que se sabe é que um tema que não precisava ocupar a reta final passou a exigir respostas do candidato e de sua equipe. Fontes ligadas a Flávio garantem que a transição do Bolsa Família é para que os beneficiários empreendam e tenham renda própria. Se o pobre aprender a pescar, avaliam, o curral eleitoral de Lula chegará ao fim.

No domingo saberemos quem ganhou. Talvez nunca saibamos quantos votos a entrevista movimentou. Mas uma coisa já aconteceu: Daniella foi falar de uma proposta econômica e obrigou Flávio a falar de um problema político, a seis dias de uma votação decidida até a última fração de ponto percentual.

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