Quando a harmonização do vinho combina diferentes sabores e ambientes

Redação
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Pedro Henrique Leôncio Mota - Texto e Imagem

Quando se fala em harmonização de vinhos, a conversa costuma seguir um roteiro conhecido: tintos para carnes vermelhas, brancos para peixes, rosés para pratos leves. É um bom começo, mas talvez estejamos deixando de fora um ingrediente importante. A ocasião.

Afinal, de que adianta escolher o vinho tecnicamente perfeito para um jantar se esquecemos de quem está sentado à mesa?

Imagine um jantar a dois. Uma carne grelhada, algumas batatas assadas, uma iluminação mais baixa e duas taças de Cabernet Sauvignon. A combinação faz sentido: os taninos do vinho podem encontrar equilíbrio na gordura e na proteína da carne. Mas dificilmente alguém se lembrará daquela noite apenas pela qualidade dos taninos.

Talvez a lembrança seja da conversa, da música ou simplesmente do prazer de estar ali. Agora troque o cenário.

É domingo. A família está reunida, o frango assado acaba de sair do forno e alguém abre um Chardonnay. Dependendo do estilo do vinho e do tempero do prato, a combinação pode funcionar muito bem. Mas o que realmente dá sabor àquele almoço são as histórias repetidas, as risadas e aquela sensação de que ninguém precisa olhar para o relógio.

E quem disse que harmonizar exige uma mesa sofisticada? Uma pizza dividida entre amigos, acompanhada de um Merlot jovem e frutado, pode render uma noite tão agradável quanto um jantar em restaurante premiado. A acidez do tomate, o queijo e a intensidade dos ingredientes pedem atenção na escolha do vinho, mas não exigem uma cerimônia.

Em Brasília, onde uma varanda e o fim de tarde já são bons motivos para reunir pessoas, também há espaço para outras combinações. Um Sauvignon Blanc bem fresco, por exemplo, pode acompanhar um peixe grelhado ou uma salada com ervas. Sua acidez ajuda a trazer frescor à refeição, especialmente nos dias quentes.

Naturalmente, existem princípios que ajudam a escolher. Vinhos encorpados costumam acompanhar melhor pratos intensos. A acidez pode equilibrar a gordura. O dulçor de um vinho pode suavizar a sensação de ardência de certos temperos. E os taninos, presentes em muitos tintos, interagem de maneira interessante com pratos ricos em proteína e gordura.

Mas essas orientações não são leis. Um peixe preparado com molho intenso pode aceitar um tinto leve. Uma carne branca com molho cremoso pode pedir um branco mais estruturado. O preparo, muitas vezes, importa tanto quanto o ingrediente principal.

Por isso, talvez seja hora de acrescentar uma terceira pergunta às duas que costumamos fazer.

Não apenas qual vinho? e qual prato?

Mas também: para qual momento?

É essa a harmonização que mais me interessa. Porque democratizar o vinho não é ensinar todo mundo a decorar regras. É oferecer caminhos para que cada pessoa descubra suas próprias combinações, dentro de suas possibilidades, preferências e experiências.

Na Sociedade do Vinho, acreditamos que uma boa garrafa não precisa ser cara, nem uma refeição precisa ser sofisticada para merecer um brinde. No fim das contas, a harmonização mais importante talvez não aconteça entre a uva e o alimento. Talvez aconteça entre as pessoas que compartilham a mesa.

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Pedro Henrique Leôncio Mota é Fundador da Sociedade do Vinho | Vinho para todos.

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