De Vênus Platinada, nos tempos do todo poderoso Roberto Marinho, à Globo Lixo, o Sistema Globo de Comunicação, incluindo a TV Globo e os satélites Globo News, jornal O Globo, Rádio Globo e CBN foram do céu ao inferno em pouco mais de três décadas. Depois de quase ser expurgada por um de seus maiores detratores, o ex-presidente Jair Bolsonaro, a empresa da família Marinho decidiu romper o abismo existente entre ela e o clã Bolsonaro. Só para ilustrar, entre 2019 e 2022, Jair Bolsonaro ameaçou diversas vezes não renovar a concessão pública da Rede Globo.
Antes de deixar o cargo, assinou a renovação por mais 15 anos em dezembro de 2022. Na tentativa de voltar ao céu estrelado e recheado de contratos oficiais de publicidade, a empresa fez o que Brasil e o mundo imaginavam. Antes mesmo da conclusão da eleição, os herdeiros colocaram a copa, a cozinha e o refeitório da empresa à disposição do senador Flávio Bolsonaro, candidato presidencial da extrema-direita, segmento que tem a simpatia explícita dos empresários e principais diretores, coordenadores e comentaristas globais e afiliados. É nesse sistema que a maioria esmagadora, inclusive os imortais da casa, surfa desde o comando único do Dr. Roberto Marinho.
A diferença é que o criador do grupo nunca escondeu sua preferência por um regime mais duro e sobre o qual ele pudesse interferir. Ele não mentia, tampouco fingia seu fervor antidemocrático. Embora seus remanescentes escancarem na dissimulação e tentem esconder a ojeriza por quem também detesta os rancorosos métodos empresariais da Globo, o emburrecimento do povo pode ser político-eleitoral, mas jamais será de percepção e identificação de puxa-sacos e de bajuladores contumazes.
Para os que não se lembram, foi assim em 1989, quando, cínica e claramente, a TV Globo veiculou histórias estritamente familiares com o objetivo de eleger Fernando Collor de Mello. Elegeram. Certamente será assim em 2026, eleição já definida pelos sensitivos da Globo como pule de dez para Flávio Bolsonaro. Por isso, tudo deve ser feito para e pelo candidato do Partido Liberal, legenda que, em 2018 e 2022, ajudou seus simpatizantes e seguidores a criar o pejorativo bordão Globo Lixo. É um desrespeito com o povo apelidado de telespectador.
Como sempre acontece, a (re)aproximação com o clã Bolsonaro tem tudo a ver com o poder. Com uma equipe de competentes rastreadores, o grupo Globo sabia, desde o início da campanha, que Luiz Inácio Lula da Silva, iria claudicar. Conforme os dados computados pela turma do rastreamento ou pela condução de votos, Lula corria o risco de não emplacar um quarto mandato. A expressiva vantagem numérica do candidato da extrema-direita no primeiro turno confirmou as expectativas dos tubarões da empresa do globolismo de conveniência econômica.
É bom registrar que não falo sobre direita ou esquerda. Falo da isonomia. E isso a Globo nunca teve, não tem e jamais terá. Pelo menos com aqueles que a incomodam. Tudo bem que, provavelmente por razões publicitário-financeiras, Lula da Silva tenha deixado de ser a menina dos olhos dos Marinhos. Apostar em alguém que possa colaborar na empreitada de recuperação dos cofres globais é muito melhor do que insistir com um presidente cuja prioridade número um não é o grupo Globo. O problema é que não há expectativa de cofre cheio sem a realidade da audiência. Os bolsonaristas transformaram a Globo em algo desprezível, um verdadeiro lixo. Apesar do dos salamaleques ao menino Bolsonaro. Aliás, deve ficar pior com uma eventual derrota do petismo.
Sinceramente não acredito que, em caso de vitória, Flávio Bolsonaro consiga levar o jornalismo e o novelismo da empresa de volta ao pedestal do luxo. Convenhamos que, em milhões de eleitores, a diferença entre Lula e Flávio não é mastodôntica. Isso quer dizer que, tão ou mais raivosos do que os conservadores, os progressistas certamente migrarão para outras fontes menos subservientes ao poder ou a pretensos poderosos. É bom que se diga que o candidato beneficiado não tem nada a ver com bajulação global. Nós, os telespectadores, temos. Eu, por exemplo, acho que eleição deve ser ganha no voto, isto é, sem a intervenção do Plim Plim. Como a ojeriza se paga com ojeriza, faz tempo que a Globo tem a minha. Parafraseando um velho ditado, tu, Rede Globo, és lixo e ao lixo voltará. Como nada é mais educativo em nossa televisão do que o botão de desligar, tchau TV Globo.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

