Quem paga a foto das pesquisas lê voto errado antes da urna ser aberta

Redação
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Aurélio Zanotti - Foto Editoria de Imagens/A

Toda pesquisa eleitoral tem uma linha que pouca gente lê: o nome de quem pagou. A Quaest divulgada hoje foi contratada pela TV Globo e pelo jornal O Globo. A rodada anterior, de 14 de outubro, custou R$ 338.178, segundo os próprios contratantes.

Não é ilegal nem é segredo, está registrado no TSE. Mas o eleitor tem o direito de saber que a fotografia da eleição é encomendada, paga e divulgada pela mesma emissora que transmite o debate e faz a cobertura da campanha.

O resultado de hoje é empate técnico: Flávio Bolsonaro tem 45% e Lula, 44%. Em votos válidos, a vantagem é de Flávio, com 50,5% contra 49,4%. A Meio/Ideia mostra Flávio com 51,1%.

A pesquisa que acerta no sábado
É preciso ser justo: na véspera do primeiro turno, a Quaest chegou perto. Mostrou Lula com 46% e Flávio com 45%, e as urnas deram Flávio com 47,03% e Lula com 45,16%. Num ranking de 17 pesquisas, ficou em segundo lugar.

O problema é o que veio antes. Em 28 de setembro, uma semana antes da eleição, a mesma Quaest mostrava Lula seis pontos à frente: 46% a 40%. Errou o placar por 15 pontos acumulados. De seis institutos que divulgaram pesquisa na véspera, só um mostrava Flávio numericamente à frente. Durante semanas, o eleitor indeciso foi informado de que a eleição tinha um favorito, e as urnas mostraram outro.

Ou o Brasil mudou cinco pontos de opinião em cinco dias, ou as pesquisas não estavam conseguindo ouvir uma parte do país. Os institutos devem essa explicação. Nenhum deles a deu.

O efeito da fotografia
Uma pesquisa não é só um retrato, ela também influencia. O eleitor que vê seu candidato seis pontos atrás pode desanimar, mudar o voto útil ou nem ir votar.

A pesquisa que acerta na véspera é a mesma que, na semana anterior, ajudou a construir uma sensação de eleição decidida que não existia.

O voto que conversa com o Congresso
Há um dado que nenhuma pesquisa de intenção de voto mede, mas que pesa no dia seguinte à eleição. O Congresso já está escolhido. O PL saiu das urnas com a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e a maior do Senado, com 28 senadores. Os partidos de direita mantiveram a maioria na Câmara, com 276 das 513 cadeiras.

O presidente que tomar posse em janeiro vai governar com esse Congresso. Um Executivo de costas para o Legislativo significa veto, atrito, medida provisória caducando e projeto parado. Quem sente isso primeiro é o prefeito, que espera a ambulância, a obra e o convênio. As emendas obrigatórias continuam sendo pagas, mas o ritmo dos pagamentos, os programas dos ministérios e as verbas que não são impositivas dependem de quem está no Planalto. Prefeito experiente sabe disso, e por isso costuma procurar quem tem a caneta.

Não é preferência, é necessidade
O alinhamento entre Planalto e Congresso não é capricho ideológico. É uma necessidade prática. Quando Executivo e Legislativo pensam juntos, o orçamento deixa de ser cabo de guerra e vira planejamento. A emenda do deputado encontra o programa do ministério, a obra federal encontra a contrapartida do estado, e o recurso chega ao município sem ficar parado na disputa entre os dois poderes.

É assim que se multiplicam as possibilidades de investimento regional: estrada que sai do papel, hospital que ganha equipamento, escola que recebe reforma, produtor rural que tem acesso a crédito e infraestrutura. Um governo que briga com o Congresso por quatro anos atrasa tudo isso. Um governo que fala a mesma língua da maioria eleita acelera.

O eleitor que já escolheu um Congresso de direita pode se perguntar se quer um presidente que vai brigar com ele até 2030, ou um que vai trabalhar ao lado da maioria que o próprio eleitor colocou lá.

Pesquisa, portanto não é sentença. A eleição de 4 de outubro mostrou que a margem de erro de 2 pontos às vezes cabe numa semana inteira de campanha. A única pesquisa que decide é a de domingo, feita na urna, sem contratante, sem amostra e sem margem de erro.

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