Assim como em uma final de campeonato, no segundo turno de uma eleição presidencial qualquer resultado é imprevisível. A única diferença é que, embora haja a possibilidade de os dois candidatos fecharem a apuração com o mesmo número de votos, não há hipótese de empate. Arredondando o português matemático, não existe chance alguma de a disputa terminar em pênaltis. No caso extremo de empate, vence o mais velho. Portanto, não há que se cantar vitória antes do tempo, tampouco começar a formar o ministério antes do apito final.
A dúvida sobre a eventualidade do empate ocorreu logo após o vergonhoso debate da TV Bandeirante, no qual a falta de respostas concretas de um candidato e o show de desrespeito, ironia, prepotência e arrogância do outro e de seu staff repercutiram intensamente nas redes sociais e nos levantamentos eleitorais subsequentes. As recentes pesquisas têm mostrado um cenário de disputa voto a voto. Na semana passada, a consulta realizada pelo PoderData indicava 50% dos votos válidos para cada um.
Na manhã dessa quarta-feira (21), o instituto Quaest cravou 45% para Flávio Bolsonaro e 44% para Luiz Inácio Lula da Silva, ou seja, muito mais do que um simples empate técnico. Entre os dados mais interessantes, a rejeição ao candidato da extrema-direita alcançou 52%, contra 47% do atual presidente. O mais relevante é o quantitativo de indecisos. Na pesquisa espontânea, eles chegam a 14%, o dobro da última sondagem da própria Quaest. Tudo isso a três dias de uma eleição absolutamente indefinida.
Conforme os especialistas eleitorais, o segundo turno é uma nova eleição, embora envolva as mesmas dezenas de milhões de votos do primeiro escrutínio. Pois é justamente esse expressivo volume de sufrágios (nome rebuscado do voto) a justificativa para a probabilidade de os candidatos terminarem com a mesma quantidade ser abaixo de zero. Ainda que seja remotíssima a chance desse contexto, caso ele ocorra a previsão legal está contida no artigo 110 do Código Eleitoral.
De acordo com o texto da lei, se dois candidatos tiverem exatamente o mesmo número de votos no segundo turno, a legislação considerará eleito o de maior idade. Portanto, se houver necessidade de a regra ser aplicada na noite do próximo dia 25, o presidente Lula da Silva, na condição de mais idoso, será declarado reeleito. Como o cenário mostrado pelos pesquisadores não mostra gorduras para um ou outro lado e considerando que não há empate nas urnas, é bom que os dois candidatos não façam conta com base na margem de erro. Na contagem final, vale o que está escrito no borderô final da Justiça Eleitoral.
Em outras palavras, eleição só termina quando o último voto é contado. Melhor dizendo, só se ganha quando o juiz sem apito divulgar os números oficiais. Somente a partir daí é que o irmão, os primos, sobrinhos, padrinhos políticos e ascendentes formais e informais podem e devem reivindicar ministérios, autarquias e fundações. Até lá, é de bom alvitre que, mesmo estocados, a cerveja, a carne e os fogos sejam escondidos em local seguro e, preferencialmente, não sabido. Concluindo o que ainda está para ser concluído, o fato é que, como a Fênix, Lula renasceu das próprias cinzas. Ele pode até não ganhar, mas, ao contrário do que pensam, não é uma ave mitológica morta.
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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais

