Na véspera de mais uma eleição presidencial, a pior da qual já participei, como cidadão e, principalmente, como eleitor, me sinto preterido e, sem margem alguma de erro, elevado à condição de um bosta n’água. Longe das ideias e de bons projetos de governo, as duas candidaturas (uma muito mais do que a outra) preferiram a estratégia da provocação e da desconstrução. Na ausência de coisas boas para propor e até do nada por dizer, optaram por convocar a tropa, enraivecê-la, partir para o ataque e seja o que Deus quiser.
Aliás, mais do que as propostas para a saúde, educação e segurança, o que mais importa para o grupo de eleitores que se apresenta como mais patriota do que todos os demais brasileiros é a ampliação da doença chamada ódio. Portanto, que o povo continue morrendo nas filas dos hospitais públicos, que as crianças permaneçam sem escolas decentes e a sociedade morra reclamando mais policiamento para suas comunidades. Para os eleitores que se dizem cansados da mesmice política, importante é que eles vençam a disputa contra seus antagonistas. O resto é detalhe.
Eu também sou a favor da alternância de poder. No entanto, não tenho razão alguma para achar que apostar no caos, na desordem e na cegueira política seja o melhor caminho para a democracia no Brasil de 2027. Não pesquisar o histórico dos candidatos e insistir na louca história do nós contra eles é o mesmo que antecipar o desmantelamento do que levou décadas para ser construído. Na verdade, para ser reconstruído. Esteja de que lado estiver, todo brasileiro vai sofrer caso o próximo presidente mantenha viva essa doença da polarização.
Minha vontade e meu direito terminam onde começam o direito e a vontade do outro. Por isso, não é só um dever, mas uma obrigação que os eleitores de uma corrente ideológica respeitem quem pensa diferente. A menos que seja simpático à tirania, todo cidadão deveria incluir em sua caderneta de anotações o respeito por quem escolhe um caminho diferente do seu. A democracia perde o sentido quando o eleitor coloca a paixão acima da compostura em relação ao próximo.
Embora estejamos vivendo uma quadra política e socialmente atípica, nenhum brasileiro pode esquecer que a verdadeira cidadania não se resume a defender um candidato, mas a considerar a dignidade das pessoas que vivem ao seu redor. Como dizem os mais sábios, quem agride e humilha para defender um político mostra que sua prioridade não é o bem do país, mas sua própria soberba. O título de eleitor nos dá o direito de votar, não o de ser arrogante ou desonesto com o vizinho, como o amigo ou com o familiar.
Ainda que a tal polarização tenha desumanizado algumas pessoas, vale registrar que, antes de sermos eleitores antagônicos, somos seres humanos que compartilham o mesmo espaço e a mesma sociedade. Que continuemos optando democraticamente pela direita ou pela esquerda. Fora disso é fanatismo, é cegueira, é incapacidade de ouvir e de compreender o outro. Uma coisa é torcer pelo melhor candidato. Outra coisa é não gostar desse candidato e torcer por aquele cuja tática política é o quanto pior, melhor. Sinceramente, temo pelo que está por vir.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

