No Brasil transformado em país cíclico até no humor das pessoas, de tempos em tempos as coisas acontecem e, com um simples clic ou um desmentido, deixam de acontecer. Esse novo modismo é mais comum nos períodos eleitorais, quando boa parte do eleitorado põe em prática o que há de pior na sociedade: a substituição da simpatia partidária pelo fanatismo pessoal ou familiar. É aí que entra em cena uma das maiores inversões de valores políticos.
Estimulados pelos favores ou pelas eventuais benesses oferecidas durante a campanha, os eleitores talvez nem percebam quando a lealdade política se torna mais importante do que a honestidade. É aquela velha e verdadeira tese de que, entre um governo que faz o mal, e um povo que consente, há uma certa cumplicidade vergonhosa. Ou seja, eles podem não perceber, mas sabem que, do mesmo modo que exige liberdade para fazer suas escolhas, o cidadão precisa ter consciência das consequências.
Surpreendente e despudoramente, de eleição em eleição o Brasil vem mostrando uma nova cara. Talvez eu não esteja mais aqui para ver quem vai pagar essa conta feita pelos que não querem enxergar nem mesmo a um palmo do nariz. Apesar de você, enquanto eu viver estarei torcendo para que haja amanhã e que o depois de amanhã surja diferente, mais humano e mais, muito mais democrático.
Torço para que o dia que vai surgir após a noite escura não tenha o radicalismo ideológico e o fanatismo político de hoje, quando tudo que se diz e que desagrada a alguém é considerado subversivo, comunista. Torço de forma mais enfática e entusiasmada para que consigamos pensar menos em nossa ascensão pessoal e social e mais na solução dos problemas dos outros.
Antes das retóricas desconexas e das reflexões vazias e puramente interesseiras, é preciso discutir que país os brasileiros de esquerda, de direita ou de centro querem. Independentemente dos antagonismos eleitorais, acredito piamente que há convergência em torno da ideia de um Brasil livre, soberano e, sobretudo, democrático. Fora disso, é mais do mesmo. Ou seja, é andar em círculos.
Portanto, apesar da reconhecida deslealdade política, dos modismos e do humor ideológico, minha verdadeira torcida é para que o Brasil mantenha sua sina democrática e que, com apoio de todas as correntes partidárias, jamais se renda ao poderio econômico das grandes potências. Que nossa expectativa de realidade seja a do entendimento coletivo.
E nunca nos esqueçamos de que duas pessoas falando coisas opostas podem estar igualmente certas. Conforme o humorista Gregório Duvivier, frequentemente elas estão. Resumindo, que nesta segunda-feira (27), à direita ou à esquerda, amanheçamos como uma nação ainda mais democrática.
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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

