O Nordeste sempre foi tratado pelo PT como uma espécie de quintal eleitoral, desses onde o dono da casa deixa a porta aberta porque acredita conhecer todos os visitantes. Durante anos, Lula entrou e saiu desse território com a naturalidade de quem atravessa a própria sala. Conhecia os caminhos, sabia onde estavam os votos e tinha a confiança de milhões de eleitores. O problema é que, em política, até as portas mais antigas podem começar a ranger. E algumas, quando se abrem, deixam entrar quem jamais havia sido convidado.
Flávio Bolsonaro parece ter compreendido essa lição. Na reta final de uma eleição presidencial disputada palmo a palmo, o senador carioca tenta realizar aquilo que parecia improvável: atravessar as fronteiras sentimentais do lulismo nordestino e conquistar eleitores que, durante décadas, associaram o sobrenome Bolsonaro a um adversário político distante de suas realidades.
Mas, por que isso estaria acontecendo? A resposta não está apenas nos discursos, nas promessas econômicas ou no desgaste natural de quem governa. Está, com certeza, na escolha de um companheiro de chapa que conhece o Nordeste por dentro, fala sua linguagem e carrega uma biografia capaz de despertar identificação em determinados segmentos do eleitorado.
Seu nome é Alfredo Gaspar. E foi justamente sobre ele que ouvi uma explicação curiosa de um amigo alagoano. Amigo que, 24 anos atrás, depositou seu primeiro voto presidencial em Luiz Inácio Lula da Silva e hoje confessa, sem qualquer cerimônia, que se arrependeu.
Não é um arrependimento tímido, daqueles que se escondem atrás de um sorriso amarelo. É uma ruptura declarada, acompanhada de uma explicação que mistura desencanto político, valores pessoais e admiração por um conterrâneo.
— Quer saber por que Flávio começou a entrar onde o PT achava que ninguém mais entraria?, perguntou-me numa conversa telefônica, com a segurança de quem conhece os atalhos de sua terra.
Antes que eu respondesse, ele disparou:
— Alfredo Gaspar.
Achei a explicação excessivamente simples para uma eleição tão complexa. Afinal, o Nordeste não é uma aldeia, tampouco seus milhões de eleitores pensam pela cabeça de um único homem. Mesmo assim, resolvi escutar meu amigo, que continuou:
— Alfredo é um homem de bem e do bem. Honesto, leal, daqueles que levam os próprios valores a sério. Não é sujeito de fazer média, mas um homem que acredita no certo e no justo, mesmo quando isso o torna enfadonho.
Meu interlocutor fez uma pausa. Depois, acrescentou, quase como quem revela um segredo de família:
— Não bebe, não fuma e, pelo que se conhece dele, é inteiramente dedicado à esposa. É um sujeito tão enquadrado que às vezes parece incapaz de relaxar.
Parece-me que ele iu, do outro lado da linha, meu sorriso. Imaginei um político que, se fosse convidado para uma roda de samba, provavelmente perguntaria primeiro se os músicos estavam com os impostos em dia. Meu interlocutor, porém, não achou graça.
— Estou falando sério. Até aquela história que espalharam sobre uma suposta filha fora do casamento me revoltou. Não se pode destruir a reputação de alguém com conversa de campanha.
Registrei a indignação, e observei, compartilhando do seu raciocínio, que a vida privada de qualquer homem público merece respeito, e alegações dessa natureza exigem comprovação antes de serem tratadas como fatos.
Mas havia algo interessante naquela defesa apaixonada. Meu amigo não estava propriamente descrevendo um programa de governo, ele falava de confiança, reputação e identificação. Entendi que aí estava a chave de sua interpretação.
Alfredo Gaspar não surgiu na política como um desconhecido vestido para a fotografia eleitoral. Foi promotor de Justiça, procurador-geral de Justiça de Alagoas, secretário estadual de Segurança Pública e chegou à Câmara dos Deputados. Sua trajetória institucional oferece à campanha de Flávio um personagem com discurso próprio e experiência administrativa.
Para determinados eleitores, esse currículo funciona como um cartão de visitas. Para outros, naturalmente, não elimina a necessidade de examinar suas posições, alianças e decisões políticas. O fato é que Flávio Bolsonaro encontrou no deputado alagoano uma ponte para atravessar um rio que o bolsonarismo sempre teve dificuldade de cruzar, com os números ajudando a compreender a dimensão dessa travessia.
No primeiro turno de 2026, Flávio conquistou aproximadamente 10,4 milhões de votos no Nordeste, contra 8,8 milhões obtidos por Jair Bolsonaro em 2022. O crescimento foi de 18,3%, embora Lula continuasse amplamente majoritário na região. O mais significativo é que a vantagem petista diminuiu em praticamente todos os municípios nordestinos.
Claro que isso não significa que Alfredo Gaspar seja o responsável exclusivo pelo fenômeno. Assumir isso seria tão precipitado quanto atribuir a um único sanfoneiro todo o sucesso de uma festa junina. Porque, na panela em política, há outros ingredientes, como a influência de prefeitos e lideranças municipais, a mobilização religiosa, as preocupações com segurança pública, a economia doméstica, a insatisfação com o governo e a capacidade da oposição de organizar palanques.
Desnecessário reconhecer, portanto, que o próprio PT ainda conserva uma vantagem expressiva entre os nordestinos. No Datafolha divulgado na quinta-feira, 22, Lula aparece com 68% dos votos válidos na região, contra 32% de Flávio. Porém, nacionalmente, os dois estão empatados em 50% a 50%.
É precisamente nesse contraste que mora o perigo para os estrategistas de ambos os lados. Lula não precisa perder o Nordeste para perder a eleição. Basta que sua vantagem regional diminua o suficiente para não compensar eventuais derrotas em outras partes do país. Flávio, por sua vez, não precisa conquistar a maioria dos nordestinos, mas tão-somente reduzir a diferença enquanto preserva suas bases eleitorais no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Como a matemática das urnas não tem coração e tampouco conhece fidelidade eterna, voltei, então, ao meu amigo alagoano.
— Você acredita mesmo que um candidato a vice pode mudar o destino de uma eleição presidencial?
Ele respondeu sem hesitar:
— Sozinho, não. Mas pode fazer muita gente olhar para o candidato principal com outros olhos.
Traduzi essa resposta como n melhor síntese de sua percepção. O vice não substitui o cabeça de chapa, mas pode emprestar-lhe credibilidade diante de eleitores que ainda resistem a apertar seu número na urna.
No caso de Alfredo Gaspar, a estratégia é deliberada. A campanha colocou o Nordeste entre suas prioridades e atribuiu ao alagoano papel destacado na mobilização regional. A escolha de seu nome, consequentemente, não foi apenas geográfica; foi também política e simbólica.
A dois dias da eleição, a disputa presidencial se parece menos com uma corrida de velocidade e mais com uma maratona disputada sob o sol do sertão. Lula conhece o percurso porque já atravessou muitas vezes essas estradas, sabe onde estão os atalhos e dispõe de uma relação histórica com milhões de nordestinos. Já Flávio corre tentando provar que o caminho não pertence a ninguém por escritura definitiva.
O candidato de oposição carrega a força de seu sobrenome e Alfredo Gaspar aparece como um companheiro de jornada capaz de dialogar com parcelas do eleitorado que supostamente não se sentiriam representadas pelo bolsonarismo tradicional. No fim, não será necessariamente o candidato que gritar mais alto, nem aquele que reunir a multidão mais barulhenta, que cruzará primeiro a linha de chegada. E vencerá quem transformar simpatia em comparecimento, confiança em voto e mobilização em resultado.
Meu amigo alagoano, porém, prefere uma explicação menos matemática e mais humana.
— O Nordeste está aprendendo a olhar para as pessoas, não apenas para os partidos, enfatiza.
Não sei se seu entendimento sobreviveria integralmente ao exame de um cientista político, mas sei que há uma lição escondida nela, onde se aprende que nenhum território eleitoral é propriedade perpétua de quem quer que seja. Basta lembrr que voto não é herança de família, escritura de cartório ou promessa de casamento eterno. É uma procuração que o cidadão entrega por prazo determinado, com direito a arrependimento na eleição seguinte.
Ao fim da conversa, concluí que enquanto Lula e Flávio disputam os últimos metros dessa corrida, Alfredo Gaspar tenta demonstrar que até uma muralha eleitoral pode apresentar rachaduras suficientes para alterar o resultado. Porque, no domingo, 25, quando as urnas começarem a revelar sua sentença, não haverá mais espaço para discursos, pesquisas ou apostas de botequim.
O Nordeste continuará sendo Nordeste, Lula continuará sendo Lula e Flávio continuará carregando o sobrenome Bolsonaro. Já o eleitor, esse personagem imprevisível que políticos insistem em considerar propriedade particular, terá a última palavra. Cabe, aqui, meu aval ao que afirmou o amigo alagoano: na democracia, ninguém é dono do voto alheio, muito menos quem acredita ter nascido com a chave do curral no bolso.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras

